A escritora e professora universitária belo-horizontina Camila Nicácio lançou o romance Nas dobras da estória, obra que mergulha nas zonas nebulosas entre verdade e invenção, realidade e ficção. O romance é o segundo da autora, que também possui obras de poesia publicadas no Brasil e na França.
Partindo do furto de uma estória original em uma gráfica de impressões, o livro desdobra de forma caleidoscópica temas universais como solidão, amor, medo, morte e adoecimento, enquanto acompanha o entrelaçamento das trajetórias da escritora Ana, de Eva e Bruno, protagonistas da narrativa. A partir do recurso da metaficção, Camila Nicácio constrói uma trama que tensiona os limites da autoria e questiona os modos contemporâneos de produção da verdade.
“O romance é uma tentativa de transpor ao plano literário a perplexidade que traz o embaçamento de fronteiras no mundo contemporâneo entre a verdade e a invenção, a ficção e a realidade, mas também o dentro e o fora, o passado e o presente, o digital e o presencial. Atualmente, a verdade é reivindicada como a verdade de cada um, com todas as consequências que isso pode ter no horizonte do convívio entre as pessoas e na responsabilidade de uns pelos outros”, afirma a autora.
A metaficção como ferramenta criativa
Em Nas dobras da estória, Camila dá continuidade a uma pesquisa literária já presente em seu primeiro romance, “É tudo inventado, mas não é mentira”. Lançado em 2023, este livro, que é o primeiro volume da trilogia Verdade inventada, teve recepção calorosa de público e crítica, além de rápida reimpressão poucos meses após o lançamento. No segundo volume, a autora volta a recorrer à metaficção como forma de embaralhar vozes narrativas e deslocar certezas.
“A metaficção me pareceu a maneira mais eficaz para justamente embolar essa fronteira a mais: quem fala o que dentro de qual estória? Gostaria que leitora e leitor se perdessem e se achassem, convergindo para o que é essencial para cada uma e um”, explica Camila.
A experiência de mais de 25 anos de atuação de Camila Nicácio na área dos direitos humanos também atravessa o romance. Ao longo da carreira, a autora trabalhou com mediação e acesso à justiça, adolescentes em conflito com a lei, população em situação de rua, pessoas LGBTQIA+ e liberdade religiosa de grupos afro-religiosos, experiências que reverberam na construção das personagens e dos conflitos presentes no livro.
“O direito é uma tentativa humana e muito limitada de deixar o mundo um pouco mais habitável; a literatura é a afirmação de que o mundo pode ser habitável apesar dele mesmo. São duas lógicas que tendem a se chocar”, reflete a escritora, também professora de direito.
Das fronteiras entre a realidade e a invenção
A relação entre vida e ficção também ocupa lugar central na narrativa. Ana Borja, protagonista do romance, é uma escritora cuja trajetória se sobrepõe constantemente ao universo ficcional que cria. Para Camila, o jogo entre autobiografia e invenção faz parte da própria essência da literatura. “Não se trata de um livro autobiográfico, mas quem escreveu fui eu”, comenta. “Ana sou eu. E Ana não sou eu. É a parte mais mirabolante e sedutora da fabulação”.
Sobre a autora
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| Foto - Henrique Mourão |
Camila Nicácio é escritora, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisadora na área dos direitos humanos. Natural de Belo Horizonte, possui livros de poesia publicados no Brasil e na França, entre eles Courts-métrages, poèmes visuels (2011) e Ensaios para quase (2020). Em 2023, lançou o romance É tudo inventado, mas não é mentira. Também atua como autora de letras de música em parceria com o músico e compositor Dudu Nicácio.
Ficha técnica
Nas dobras da estória
Autora - Camila Nicácio
Editora - Quixote
Páginas - 140
Preço - R$ 68,00
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