Foto - João Maria

Com direção de José Fernando Peixoto de Azevedo, e dramaturgia 
a partir de textos e entrevistas de Pier Paolo Pasolini, montagem transforma o teatro, antigo estúdio de cinema, em cenário

Tensionando os limites entre ação e suspensão, ficção e realidade e teatro e cinema o espetáculo Tragédia Linche Vol. I: Os Jovens Infelizes prorroga temporada até 08 de junho no Teatroiquè. A montagem, que dá continuidade à Residência Sociedade Arminda no mais novo teatro de São Paulo, radicaliza a investigação do coletivo ao lançar o público em uma fábula urgente sobre violência, justiça e juventude no Brasil contemporâneo.

Em Tragédia Linche Vol. I: Os Jovens Infelizes, dois jovens moradores da periferia de São Paulo decidem vingar o assassinato do pai. O sequestro do principal suspeito, um policial, os coloca diante de uma situação limite, atravessada por impasses, divergências e tensões que ameaçam redefinir seus destinos. “Vamos matar esse fascista”, gritam os irmãos, em um gesto que condensa revolta e desespero.

A dramaturgia parte de textos e entrevistas de Pier Paolo Pasolini, entre eles o artigo Os jovens infelizes, o poema Hierarquia e a última entrevista concedida pelo artista italiano poucas horas antes de seu assassinato, em 1975, intitulada Estamos todos em perigo. Ao aproximar esses materiais da realidade brasileira, o espetáculo investiga como tensões políticas, sociais e econômicas atravessam a juventude contemporânea.

Opala 1988 em cena

Foto - João Maria

“A peça-filme é o que o nome descreve: uma peça e um filme ao mesmo tempo”, afirma Azevedo. “Deslizamos entre a cena de teatro e o set de gravação, compondo um jogo em que o filme não é comentário ou duplicação da ação, mas parte da própria cena. Ao fim, tudo é teatro, e o cinema nos devolve ao teatro”.

Instalado em um espaço que originalmente funcionou como estúdio cinematográfico, o Teatroiquè torna-se elemento central da proposta. Câmeras, projeções e uma grande tela em formato 16:9 estruturam um dispositivo que articula presença ao vivo e imagem captada em tempo real. Em Tragédia Linche Vol. I: Os Jovens Infelizes, esse mecanismo se expande: o teatro se converte em locação, atravessando rua, corredores, estúdio, piscina, porão e terraço, compondo um campo de ação que transborda o palco.

No centro dessa engrenagem está um Opala 1988, que não apenas entra no espaço cênico, mas se torna motor propulsor da ação. Na narrativa, o carro pertence ao homem sequestrado e sua entrada, guiada por um dos atores, empurra a história adiante.

Teatro e cinema

Foto - João Maria

Em um país marcado por recorrentes episódios de justiçamento, com registros semanais de linchamentos ou tentativas, a encenação tensiona a transformação da revolta em justiça pelas próprias mãos, deslocando o olhar para uma pergunta incômoda: o que significa justiça hoje?

Em cena, Caio Nogali, Odá Silva e Samurai Cria transitam entre personagens, depoimentos e fragmentos textuais, contracenando com uma banda e uma cantora, enquanto imagens captadas ao vivo desdobram a ação em múltiplos pontos de vista. Duas câmeras instauram duas instâncias: em preto e branco, uma narrativa ficcional em diálogo direto com o público; em cor, um personagem registra seu próprio documentário. Dois filmes emergem simultaneamente, enquanto o teatro se afirma como campo de fricção entre eles.

“Ao trabalhar aqui, encontramos um espaço que potencializa essa imaginação que nasce justamente do encontro entre teatro e cinema”, comenta Azevedo sobre a parceria com o Teatroiquè. “Não se trata de produzir ilusão, mas de expor o mecanismo e revelar como as imagens e as narrativas são construídas”.

Nesse jogo, os personagens parecem sempre à beira de agir, ensaiando gestos que nunca se completam sem antes precipitar novas catástrofes. A pergunta que atravessa a encenação - “quantos prólogos são necessários para que algo aconteça?” - ecoa como impasse e provocação.

Ficha técnica
Tragédia Linche Vol. I: Os Jovens Infelizes
A partir de materiais da obra de Pier Paolo Pasolini
Dramaturgia, Dispositivo de Cena e Direção - José Fernando Peixoto de Azevedo
Elenco - Caio Nogali, Odá Silva e Samurai Cria
Direção Musical - Agá Péricles e João da Paz
Desenho de Luz - Thiago Yuta
Assessoria de Imprensa - Nossa Senhora da Pauta
Fotografia - Lucas de Maman
Produção - Anderson Vieira | Corpo Rastreado
Realização - Sociedade Arminda e Teatroiquê

Serviço
Tragédia Linche Vol. I: Os Jovens Infelizes
Temporada - até 08 de junho
Horário - sexta-feira, sábado e segunda-feira, às 21h e domingo, às 18h
Duração - 90 minutos
Local - Teatroiquè
Endereço - Rua Iquiririm, 110 - Butantã - São Paulo
Ingressos - R$ 80,00 (inteira) e R$ 40,00 (meia)
Classificação - 16 anos