Foto - Lígia Jardim

A montagem aposta no humor ácido para confrontar gênero, classe e fé em um país à beira de novas rupturas

Em 2040, o condomínio de luxo Nova Canaã já não é apenas o endereço de uma família de classe média: tornou-se a metáfora de um país murado. Conforto, discurso e medo convivem sob vigilância privada. É nesse território aparentemente protegido que Gente de Classe, do Grupo Carmin, com direção de Quitéria Kelly, uma das fundadoras do grupo, criado em Natal há mais de vinte anos, projeta um Brasil que parece futuro, mas fala diretamente do presente. O espetáculo estreia no Sesc Avenida Paulista, dia 29 de maio e fica em temporada até 28 de junho.

Inspirada nas leituras do sociólogo potiguar Jessé Souza, a dramaturgia constrói um recorte específico da classe média - urbana, escolarizada, moralmente ansiosa - que pode ser reconhecida em diferentes regiões do país. “Não é de uma ficção científica clássica, que tenta antecipar o futuro, mas uma crítica do presente a partir da projeção desse futuro possível”, afirma Quitéria Kelly, diretora do espetáculo.

Foto - Lígia Jardim

No centro da narrativa está uma mãe solo, que cria dois filhos dentro do condomínio blindado Nova Canaã. Ela encarna a contradição entre autonomia e sobrecarga, discurso progressista e prática conservadora. Ao seu redor, personagens majoritariamente femininas ampliam o debate: Maria, a inteligência artificial doméstica, e uma ativista do movimento revolucionário disputam o espaço privado e o espaço público. “O protagonismo feminino é uma larga tradição na modernidade. Por que não imaginar que a próxima revolução deste século XXI comece e seja liderada por mulheres?”, provoca a diretora.

A encenação tem uma estética assumidamente artificial, limpa e controlada, que reflete um mundo em que as relações humanas passaram a funcionar como um jogo permanente de performance. O cenário, composto por elementos minimalistas e modulares, deixam uma atmosfera “clean”, asséptica e impessoal: tudo parece organizado demais, calculado demais, “como um feed de rede social cuidadosamente editado”, nas palavras da diretora.

Foto - Márcia Novaes

Para a diretora, a ideia do condomínio e da casa funcionam como metáfora de uma sociedade obcecada por sucesso, perfeição, status, engajamento e pertencimento: um espaço aparentemente perfeito, mas frágil. “Existe sempre uma sensação de vazio e instabilidade”, diz.

A encenação se distancia da realidade analógica, com o uso de projeções mapeadas. Esse recurso amplia a sensação de gamificação das relações pessoais, em que tudo é mediado por números, likes, rankings, barras de progresso, desafios e recompensas. A escolha do nome Nova Canaã também é deliberada. “No Brasil de hoje, é muito forte a instrumentalização política do discurso evangélico e é justamente a partir da religião que a ideologia dominante opera no imaginário”, destaca a diretora. Para ela, fé, consumo e conservadorismo se entrelaçam na manutenção de privilégios.

Foto - Lígia Jardim

Com influência de beats eletrônicos, trap music e da pesquisa musical de Ian Medeiros, a trilha sonora ajuda na construção estética e crítica da obra, ao conduzir a dramaturgia com pulsações, ironias e ritmos. “Em muitos momentos, ela funciona como um mecanismo de distanciamento: interrompe a tensão dramática para permitir que o humor apareça e que a crítica social possa emergir de forma mais aguda. Essa operação cria um contraste importante entre o absurdo das situações e a leveza aparente com que elas são apresentadas, característica marcante da linguagem do Grupo Carmin”, diz.

A direção de movimento acompanha essa lógica de artificialidade e controle: os corpos reproduzem gestos automatizados, poses de felicidade, dinâmicas coreografadas de convivência e comportamento performático.

Criada antes da pandemia, a peça foi retomada em 2024, quando o grupo percebeu que as tensões que a motivaram permaneciam ativas. “A surpresa é que, a despeito de estarmos com um governo mais democrático, os temas e as questões levantadas continuavam vivos na sociedade brasileira”, afirma Quitéria Kelly. O conteúdo político, aqui, é assumidamente mais explícito.

Sinopse

Em 2040, um condomínio de luxo deixou de ser apenas o lar de uma família de classe média, para se tornar um retrato das tensões sociais e contemporâneas. Em uma rotina aparentemente comum, uma mãe solo e seus dois filhos vivem cercados pelo conforto e desejo de empreendedorismo; mesmo em um mundo abalado por revoltas sociais e desigualdades crescentes. Protegido por uma empresa de segurança privada, o condomínio Nova Canaã parece imune ao caos do lado de fora, até que o muro que separa esses dois mundos começa a ruir. Um movimento organizado, liderado por mulheres, propõe uma mudança nessa divisão social.

Ficha técnica
Gente de Classe
Direção - Quitéria Kelly
Dramaturgia - Henrique Fontes, Pablo Capistrano e Quitéria Kelly
Elenco - Rafa Guedes, Thuyza Fagundes e Carol Cantídio
Direção de Movimento - Ana Cláudia Viana
Trilha Sonora - Ian Medeiros
Design de Luz - David Costa
Videomaker - Taline Freitas e Mylena Sousa
Animação - Juliano Barretol
Cenografia - Manar Zind
Figurino - Virginia Borges
Produção - Grupo Carmin e Corpo Rastreado
Assistência de Produção - Rafa Guedes e Lanuk Nagibson
Assistente de Palco - Venâncio Cruz
Comunicação Visual - Gabi Mati | Estúdio Rima
Sonoplasta - Ian Medeiros
Projeção Mapeada - Gabi Mati
Costureiras - Valquíria Rosa e Célia Lucena

Serviço
Gente de Classe
Temporada - de 29 de maio a 28 de junho
Horário - quinta a sábado, às 20h, domingo e feriado, às 18h
Duração - 60 minutos
Dias 10, 17 e 24 de junho sessões com audiodescrição, às 15h
Dias 18, 20 às 20h e 21 de junho sessões com tradução e interpretação em Libras, às 18h
Não haverá sessões nos dias 13 e 19 de junho
Local - Sesc Avenida Paulista - Arte II - 13º andar
Endereço - Av. Paulista, 119 - Bela Vista - São Paulo
Ingressos - R$ 60,00 (inteira), R$ 30,00 (meia) e R$ 18 (Credencial Plena)
Venda de ingressos nas bilheterias das unidades Sesc e online aqui
Classificação - 16 anos
Mais informações 11 3170-0800