Centrado na inquietação sobre a figura da mulher, Retratos de Mulher, quarto livro publicado pela doutora em Literatura, professora e escritora Jeanine Geraldo e primeiro lançado pela editora Urutau, traz um conjunto de textos que têm algo em comum: o grande horror da vida não está no outro mundo, mas neste. Os contos de Retratos de Mulher são únicos e a maioria, com poucas exceções, tem em seu cerne um ponto nevrálgico em comum: a experiência de ser mulher num mundo em que a violência, o abuso e o silenciamento são rotina.
A enforcada, texto que abre o livro, traz a história de uma garotinha que como presente de aniversário, pede que o pai, vigia noturno de uma fábrica, a leve para conhecer seu trabalho. Lá, ela encontra o tio que a diverte com histórias de terror, em especial a de uma mulher que teria se enforcado em um dos galpões. O cenário noturno e os espaços vazios trazem uma narrativa de terror que não está ligada ao sobrenatural. Narrado do ponto de vista da menina, o conto retrata a experiência dilacerante do abuso infantil, com um desfecho dos mais surpreendes.
“Acho que minhas experiências pessoais e observações da sociedade não só influenciam as histórias: é a partir delas que as histórias nascem. De alguma forma, mesmo que a matéria do conto não parta de uma experiência autobiográfica, a forma como eu narro está fundamentada na minha maneira de experienciar o mundo”, comenta a professora e escritora Jeanine Geraldo.
Já Lençóis Manchados de Vinho traz um texto centrado no tema da sexualidade após a maternidade. Ao retratar a perda de identidade vivenciada pela narradora, o conto dessacraliza o tornar-se mãe: “eu me vi refém daquele ser que crescia, respirava e se alimentava de mim. Tentava esconder que a cada semana eu morria um pouco para que esse outro vivesse. Quando estivesse pronto para vir ao mundo, eu teria partido”, traz o texto.
Jeanine Geraldo oferece narrativas cujas temáticas atravessam outras questões, como vida e morte, medo e mar, com destaque para contos metalinguísticos que fazem refletir sobre o próprio gênero literário, como em Quem tem medo do escuro?, em que a narradora tenta lembrar de um conto que lhe foi contado há muito tempo sobre um personagem perseguido pela escuridão.
“Acredito que o verdadeiro objeto da arte seja aquela emoção que se acende no peito do leitor, a experiência profundamente humana retratada ali. E é esse tipo de emoção que eu desejo que meu leitor e minha leitora acessem. De forma bastante ambiciosa talvez, eu gostaria que cada história fosse também uma oportunidade de olhar para dentro”, conta Jeanine Geraldo.
Por fim, o conto que dá nome ao livro encerra a coletânea numa inversão de expectativa. Aqui, a mulher retratada é vítima, mas também algoz. Vítima de uma sociedade que a silencia e oprime e que, por isso mesmo, produz a opressora: uma mulher que se aproveita dos mecanismos de proteção legal como vingança pessoal.
Retratos de Mulher se debruça sobre o irreal mais real que existe. As violências diárias que não têm nome, os fantasmas de infância que acompanham mulheres diuturnamente, os sonhos negados e os corpos dilacerados por dentro. Aqui, Jeanine Geraldo mostra não só domínio da linguagem, seu instrumento mor de trabalho, mas também certo grau de diversão através das palavras.
Sobre a autora
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| Foto - Divulgação |
Jeanine Geraldo é escritora e professora no Instituto Federal do Paraná. Pós-doutoranda em Letras pela UFPR, é pesquisadora na área de Literatura com ênfase em crítica literária, e vive tentando conciliar a vida acadêmica, os treinos de jiu-jitsu e a urgência da escrita. É autora de O animal que me tornei (2018), As folhas vermelhas do outono (2020), premiado pela Secretaria de Cultura do Estado do Paraná (Edital 003/2020 - Licenciamento de Obras Digitais), Alcateia (2022) e Retratos de Mulher (2025), 2º lugar no I Prêmio Escritoras Brasileiras na categoria narrativas curtas.
Ficha técnica
Retratos de Mulher
Autora - Jeanine Geraldo
Editora - Urutau
Páginas - 164
Preço - R$ 58,00
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