Quase dá para chamar de dança


Livro de poesia de Emily Bandeira, reúne curadoria pessoal de 55 cadernos, da infância em Caruaru à vida adulta em Brasília, em um mergulho na escrita como salvação cotidiana

Emily Bandeira, escritora, tradutora e intérprete pernambucana radicada em Brasília, acaba de lançar Quase dá para chamar de dança pela editora Andrômeda. Com orelha assinada por Ingrid Leandro e prefácio escrito por Pollyana Azevedo, a obra é o resultado de um processo incomum: a releitura cronológica de todos os seus cadernos pessoais, escritos entre os 10 e os 29 anos.

“Essa foi a primeira vez em que me propus um exercício no qual pude acompanhar com atenção e cuidado alguns dos contextos da vida, mas principalmente pude acompanhar minha própria escrita”, conta Emily.

O projeto começou na véspera de seu aniversário de 29 anos, em uma quitinete na Asa Norte, em Brasília. Debaixo de um céu cinzento, Emily abriu o baú da cama e resgatou caixas com cadernos antigos. A ideia inicial era simples: rastrear tudo o que havia escrito sobre o próprio escrever. “Senti uma curiosidade genuína”, diz. O que veio depois foram onze meses de imersão, entre lágrimas, risadas e a descoberta de que a escrita sempre foi, para ela, um modo de existir.

O primeiro caderno da série data de 2005, quando Emily tinha 10 anos. Comprado na Livraria Cultura do Paço Alfândega, em Recife, trazia na capa uma menina gótica e o nome Emily. “Mal podia acreditar em um caderno que já vinha com o meu nome escrito na capa. Fui feliz aquele dia.” Esse caderno, curiosamente, sobreviveu à infância justamente por ser vago. “Uma linguagem vaga o suficiente para sair a salvo, permanecer viva”, escreve a autora, referindo-se à falta de privacidade que enfrentou em sua infância.

A violação de seus diários e cadernos, lidos escondidos pela madrasta, levou a autora, ainda menina, a desenvolver estratégias de proteção. Escrevia em códigos, alfabetos inventados e, mais tarde, em inglês. Até o dia em que sua madrasta apareceu com um dicionário na mão e um tapa estalado no rosto. O episódio, narrado sem autopiedade, é um dos pontos de virada de sua escrita. “Uma guerra cansada e triste entre uma menina de 12 anos trancada em uma casa sem qualquer significado de lar e uma mulher de seus 40 anos com suas complexidades mesquinhas”.

Mesmo com a falta de privacidade, a escrita não parou. Emily usou um manual de instruções de um celular Nokia como caderno disfarçado, escrevendo em suas bordas e margens. “Imagina que teimosia de querer escrever. Que agonia e que beleza de insistência. Um amor desses justifica uma vida inteira”. Essa persistência é o fio condutor de Quase dá para chamar de dança, que mistura poesia, prosa e fragmentos de diário sem a pretensão de se enquadrar em gêneros rígidos.

A curadoria final reúne escritos de 2005 a 2024, organizados em blocos. Ao longo das páginas, surgem avós, amores, dentes quebrados, plantas na laje, cafés em padarias do interior de Goiás e a presença constante da lua. “Poesia sobre o cotidiano e inquietações humanas. Crença no pequeno”, resume a autora. Em um dos trechos, ela escreve: “Sinto cada vez mais momentos em que, de tão misturada a ideia da vida escrita e da vida ela mesma, já não há distinção”.

O título do livro nasce desse entrelaçamento. Escrita e vida se tornam uma coreografia imprecisa, quase uma dança. “O que acontece na vida e é escrito em algum lugar acaba por passar por uma transformação, ganhando uma espécie de qualidade hiper-real.” Para Emily, escrever não é apenas registrar, mas criar camadas adicionais de realidade. “Escrever sobre os fatos lhes aferindo ainda mais vitalidade, força de existência, duplas, múltiplas camadas de realidade”.

Sobre a autora

Foto - Manu Lavor

Emily Bandeira nasceu em Caruaru (PE) e mora em Brasília (DF). Antes de Quase dá para chamar de dança, publicou de forma independente as plaquetes sardas (2016), cardápio de amar ou coisa assim (2018) e margília (2019). Formada em Línguas Estrangeiras Aplicadas pela UnB, trabalha como tradutora e intérprete de inglês e espanhol. Foi ativista feminista antiproibicionista no coletivo do qual foi co-fundadora, Mulheres Cannábicas, e co-fundadora do festival de cinema Mostra Cinema Arruda. Em 2024, traduziu o livro Hidrografia Doméstica, do argentino Gonzalo Castro. “O sonho de Emily é descobrir como viver de caderno”, diz sua biografia oficial.

Ficha técnica
Quase dá para chamar de dança
Autora - Emily Bandeira
Editora - Andrômeda
Páginas - 240
Preço - R$ 69,90
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