O primeiro livro de contos de Cesar Garcia Lima, Se você não tem paz interior então você vem aqui pra capital, tem origem em uma nota de um cruzeiro encontrada pelo autor quando morava no centro de São Paulo, nos anos 1990. “Logo comecei a imaginar uma história de vampiros, que se tornou o conto Escrito no dinheiro, que tanto lida com a questão de troca de identidade quanto da inquietação política no final da ditadura”, conta o escritor.
A cédula com a frase que dá título à obra aparece no conto Escrito no dinheiro, que abre a coletânea, guardada na carteira do personagem Lázaro em meio a uma trama que se passa na região da Ladeira da Memória, Viaduto do Chá e Anhangabaú.
Poeta, cronista, jornalista e pesquisador de literatura e cinema, Cesar construiu uma trajetória marcada pelo diálogo entre criação literária, crítica e reflexão acadêmica. Autor dos livros de poemas Águas desnecessárias (1997), Este livro não é um objeto (2006), Trópico de papel (2019) e Bastante aos gritos (2021), além do volume de crônicas Vida desencaixada (2024), ele estreia agora na narrativa curta com seu primeiro livro de contos. Publicada pela Editora 7Letras, a obra tem 64 páginas e conta com orelha assinada pelo poeta e tradutor Ruy Proença.
A coletânea percorre, ao longo dos doze contos, do centro urbano à mitologia grega, do homoerotismo à visitação a personagens e autores literários transformados em personagens, com narrativas que vão do conto tradicional ao poema em prosa. O autor cria, segundo Ruy Proença, um “caleidoscópio de cenas urbanas”.
Em Escrito no dinheiro, um homem troca de identidade, transitando entre a Ladeira da Memória, o Viaduto do Chá e o Anhangabaú; em Nossa Senhora de Copacabana com Santa Clara, um ex-padre e uma enfermeira se encontram no cruzamento que dá nome ao conto; em As ilhas de Dédalo, a voz do construtor do labirinto antecipa o voo do filho; em O show da estrela, Macabéa reaparece diante de um reality show; e em Dia de visita, a narrativa assume a cadência do poema em prosa na voz de uma mulher internada.
Os personagens estão em permanente fluxo. Conhecemos seus anseios sobretudo por aquilo que tentam esconder ou deixar para trás. A proposta parte da confiança no trabalho criativo de quem lê, convidado a preencher as lacunas do não dito e, nesse gesto, conectar-se às figuras retratadas.
“A inadequação dos personagens, as narrativas que refletem sua busca do outro e de si mesmos expressam meu olhar sobre o outro e sobre o mundo, assim também como minha própria trajetória pessoal, ainda que não me identifique jamais com a autoficção”, afirma o autor.
No texto de orelha, Ruy Proença destaca a ironia do título e ressalta como o exercício de alteridade mescla investigação e reconhecimento do eu refletido no outro. Identidade e alteridade colidem, criando uma disputa de pontos de vista que obriga personagens e leitores a lidarem com a descoberta de si e com as distorções das próprias percepções. Ao lado da dimensão existencial, há também um humor sutil e uma ironia fina que atravessam algumas narrativas, ampliando a leitura para além do drama íntimo.
Intertextualidade, tradição e experimentação formal
A coletânea não adota uma única forma narrativa. Há contos mais tradicionais, textos que se aproximam da fábula, narrativas com traços ensaísticos e outros que tensionam o realismo com elementos alegóricos. Essa diversidade formal dialoga com a própria trajetória do autor, cuja formação poética imprime à prosa uma linguagem econômica, imagética e atenta aos detalhes mínimos.
Cesar observa seus personagens nos gestos discretos em relação aos arredores e articula essas experiências em diferentes vozes narrativas, valendo-se da intertextualidade. O autor se apropria de personagens e referências clássicas para tensionar a rigidez dessas histórias e deslocá-las para o presente. Ao retirar essas figuras de seus contextos originais e posicioná-las no caos urbano contemporâneo, convida o leitor a refletir sobre como sobrevivem (ou desaparecem) no mundo atual.
Nos contos, é possível perceber o diálogo com a mitologia grega, a poesia francesa e a vida e obra de Anton Tchékhov, além de Clarice Lispector e da personagem Macabéa. Em alguns textos, a aproximação com Clarice não se dá apenas pela referência, mas pela introspecção e pelo tensionamento entre interioridade e mundo externo. O escritor destaca ainda que a leitura da Bíblia ecoa em Escrito no dinheiro, que a força sintética das fábulas se manifesta em O cisne e que a mitologia comparece em As ilhas de Dédalo, compondo um conjunto que articula tradição e contemporaneidade.
Sobre o autor
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| Foto - Camilla Shaw |
Nascido em Rio Branco, Acre, Cesar Garcia Lima traz em sua trajetória pessoal a marca dos deslocamentos que atravessam sua ficção. Viveu até a adolescência no estado natal, com passagem por São Paulo, onde mais tarde retornaria para estudar. Entre 1987 e 1988, morou em Paris e viajou pela Europa. Desde 1995, vive no Rio de Janeiro, para onde se transferiu como jornalista, passando depois a exercer a vida acadêmica. Essa experiência entre Amazônia, Sudeste e Europa reverbera na percepção aguda de deslocamento que marca os contos.
Doutor em Literatura Comparada (Uerj), mestre em Letras Vernáculas (UFRJ), com pós-doutorados em Teoria da Literatura (Uerj) e em Literatura Brasileira (UFRJ), é fundador e diretor da produtora cultural Voo da Palavra, dedicada à literatura, ao cinema e ao teatro, com promoção de cursos, curadoria de artes e incentivo à leitura. Também dirigiu e roteirizou o documentário Soldados da Borracha (2010), contemplado pelo edital Etnodoc (2009), entre outros trabalhos.
Ficha técnica
Se você não tem paz interior então você vem aqui pra capital
Autor - Cesar Garcia Lima
Editora - 7Letras
Páginas - 64
Para mais informações clique aqui
Serviço
Lançamento do livro Se você não tem paz interior então você vem aqui pra capital
Data - 24 de maio - domingo
Horário - das 15h às 18h
Local - Livraria Martins Fontes Paulista
Endereço - Avenida Paulista, 509 - Bela Vista - São Paulo


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