Sopro de Luz - Exposição une a solidez ancestral do metal e da pedra à fluidez translúcida do vidro

Foto - Jones Kiwara

A artista plástica 
Mary Carmen Matias utiliza a junção de materiais opostos como metáfora da diversidade

A artista plástica Mary Carmen Matias apresenta a partir do dia 09 de fevereiro no Instituto Cervantes, a mostra Sopro de Luz, que reúne cerca de 35 esculturas produzidas recentemente. O projeto inaugura um novo capítulo de experimentação em sua trajetória: a inserção do vidro em simbiose com o metal e a pedra, resultando em uma coreografia mineral onde a rigidez se curva à transparência.

Para a artista, esse diálogo entre materiais opostos reflete uma percepção humanista sobre o mundo atual: "a observação da natureza nos ajuda a entender que o mundo é mais rico por ser heterogêneo. O encontro do vidro com o metal me mostrou que o essencial não é um aprisionar o outro, mas oferecer o apoio, o abraço e o aceitar".

Segundo a curadora Denise Mattar, a seleção revela uma operação silenciosa de transfiguração: "onde haveria dureza, ela propõe movimento; onde haveria silêncio, ela escuta a vibração íntima das formas", define. Mais do que desafiar a natureza bruta da matéria, a escultora extrai dos elementos a capacidade de ceder e coexistir, consolidando uma nova proposta estética e sociológica.

Encontro de opostos: metal, pedra e vidro

Foto - Jones Kiwara

Após anos dominando o metal e o mármore - intensificou sua pesquisa durante o isolamento da pandemia com a série O Caminho das Pedras -, Mary Carmen sentiu a necessidade de evoluir para o etéreo. "É um passo ousado: depois de dar leveza ao aço, ela busca agora inserir o sopro vital na matéria bruta", observa Mattar. “Eu não tinha conhecimento do vidro; sabia como o metal se comportava, porém o vidro era um mistério. Precisei estudar desde a descoberta fortuita dos cristais pelos fenícios na antiguidade para entender como poderia juntar esse novo elemento ao meu trabalho”, revela a artista.

A dificuldade reside na física com as diferenças de fusão entre os materiais. Unir ambos em uma única peça, sem que a oxidação destrua a cor ou que o choque térmico rompa o material, foi "um verdadeiro exercício de adaptação".

A curadora ressalta que esse processo gera um "abraço térmico que se transforma em escultura", onde o brilho vítreo inunda e transforma a densidade do aço. "O vidro tem uma personalidade fortíssima; você tem que aceitar o caminho que ele quer e aprender a ouvir a matéria", afirma a escultora. Denise Mattar acrescenta que essa escuta se materializa visualmente: "o vidro retém o gesto líquido mesmo depois de solidificado, como se o tempo da fusão permanecesse inscrito em sua textura".

Arte e simbiose

Foto - Jones Kiwara

As obras de Sopro de Luz transcendem a estética para carregar um peso humanístico. Ao observar as peças prontas, a artista identificou nelas uma poderosa mensagem sobre a convivência: "observei materiais opostos que convivem juntos apesar de suas diferenças. Isso me levou a pensar como é importante aceitar a diversidade. Vi o vidro e o metal se abraçando, um acolhendo o outro com suas diferenças. Como seres humanos, deveríamos conviver assim: um recebendo e aceitando o outro sem que ninguém perca sua essência", explica.

A artista substitui o conflito pelo entrosamento, sugerindo proteção e simbiose em vez de domínio de um material sobre o outro. Nas obras em que o metal envolve o bulbo de vidro, a curadora identifica uma dissolução entre interior e exterior: "a escultura se torna um organismo com veias, pele e sopro. O vidro torna-se víscera translúcida, e o metal, paradoxalmente, torna-se proteção", analisa.

As curvas orgânicas - marca registrada de Mary Carmen - servem como o elo unindo a pedra, o aço e a fluidez do vidro, revelando um pacto de convivência. "A pedra não aprisiona o vidro, nem o vidro dissolve a pedra - ambos sustentam o equilíbrio entre peso e luminosidade", diz Mattar. O percurso da exposição evidencia essa harmonia, respeitando a identidade de cada obra. "O que Mary Carmen nos oferece é escultura em estado de respiração, presença que acende o olhar e sussurra silêncio", conclui a curadora.

Inspiração do cotidiano

Foto - Larissa Maluf

O processo criativo da artista também revela momentos de absoluta intuição lúdica. Algumas das esculturas presentes na mostra tiveram suas formas iniciais inspiradas em objetos comuns, como as bexigas de festas de seus netos. "O artista capta na hora e transforma em obra de arte objetos que para os outros, podem não dizer nada", comenta Mary Carmen.

Essa capacidade de enxergar o extraordinário no ordinário resulta em obras que variam de 30 cm a 1,5 m de altura. Para Mattar, essa nova fase reafirma o desejo mais profundo da artista: "Fazer da escultura uma morada do sensível, onde luz e sombra se tocam sem se anular", conclui.

Sobre a artista

Foto - Jones Kiwara

Mary Carmen Matias é uma artista plástica com formação humanística que vive e trabalha em São Paulo, atuando com destaque tanto na escultura quanto na pintura. Sua produção artística se caracteriza pela ousadia e pela experimentação com materiais diversos, como bronze, aço, mármore e vidro, transformando a dureza da matéria-prima em "poesia". Com um vasto currículo, a artista já realizou 13 Exposições Individuais, com curadoria de Jacob Klintowitz e Denise Mattar, em locais como o Espaço Cultural FIESP-SESI, Instituto Cervantes e o MIS (Museu da Imagem e do Som), além de ter participado de 34 Exposições Coletivas em espaços renomados como o MUBE e o Memorial da América Latina.

Ficha técnica
Sopro de Luz
Artista - Mary Carmen Matias
Obras - 35 esculturas em vidro, metais (aço, alumínio, corten) e pedras naturais
Dimensões - de 30 cm a 1,5 m de altura
Curadoria - Denise Mattar
Produção, Cenografia e Montagem - Guilherme Isnard
Fotografia - Sérgio Guerini
Vídeo - Artur Angeli | Storia
Design Gráfico - Ana Lucas
Assessoria de Imprensa - M. Fernanda Teixeira e Mauricio Barreira | Arteplural

Serviço
Exposição Sopro de Luz
Abertura - 09 de fevereiro - segunda-feira
Horário - 19h
Período - de 09 de fevereiro a 27 de fevereiro
Horário - de segunda a sexta-feira, das 10h às 19h
Local - Instituto Cervantes - Térreo
Endereço - Av. Paulista, 2439 - Bela Vista - São Paulo

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