Últimos dias da mostra 'Lumière Cineasta' no CCBB RJ

As escadarias da ponte Alma. Foto - Institut Lumière

Até 20 de dezembro, marcando a reabertura do cinema do CCBB RJ, mostra apresenta 114 “vistas” da Societé Lumière em diálogo com 38 obras de cineastas de diversas épocas e estilos. O público pode também assistir, em qualquer hora, as aulas do curso on-line 
e baixar o catálogo gratuitamente

A mostra Lumière Cineasta, que comemora os 125 anos da primeira sessão pública de cinema, apresenta, de uma forma inédita, uma seleção de 114 filmes produzidos pelos Irmãos Lumière, entre 1895 e 1905, em diálogo com 38 produções de diversos diretores, formatos e épocas.

Em cartaz até 20 de dezembro, de quarta a segunda, obras como 'O regador regado, I' (Arroseur et arrosé, I), e 'Saída da Fábrica' (Sortie d’usine), que foram projetadas no histórico dia 28 de dezembro de 1895 no Salão Indien do Grand Café, em Paris, conversam com filmes como 'Um dia no Campo' (Jean Renoir, 1936), 'Playtime' (Jacques Tati, 1967), 'Do Polo ao Equador' (Angela Ricci Lucchi e Yervant Gianikian, 1986) e 'Goshogaoka' (Sharon Lockhart, 1997). O projeto tem apoio da Embaixada da França no Brasil e é patrocinado pelo Banco do Brasil, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. A entrada é franca.

Desfile de carrinhos de bebê. Foto - Institut Lumière

“A mostra surgiu de uma vontade de ver os filmes dos Lumière não apenas como marcos históricos e os irmãos não só como homens de ciência ou comerciantes, mas também como cineastas de fato. Ou seja, artistas - pessoas que tiveram um pensamento criativo sobre o que fizeram. O caminho que imaginamos para realizar a mostra foi colocar os Lumière em relação ao cinema posterior, buscando entender como eles serviram de influência ou inspiração para outros nomes das décadas seguintes”, resumem os curadores Calac Nogueira, Lucas Baptista e Maria Chiaretti.

'Lumière Cineasta' oferece um curso on-line que pode ser assistido no dia das aulas ou, após isso, a qualquer hora aqui. Além disso, neste link também pode ser baixado o catálogo da mostra.

O curso é composto de quatro aulas:

  • 'O mundo e o fundo: Camadas de visão no cinema dos Lumière', com a professora de cinema da UFF Lúcia Ramos Monteiro
  • 'Lumière, Thomas Edison e atração', com o curador Calac Nogueira
  • 'Retratos em movimento', com o pesquisador e crítico de cinema Luiz Carlos Oliveira Júnior 
  • 'O futuro de uma invenção: Hollis Frampton e o catálogo Lumière', com o curador Lucas Baptista - dia 16 de dezembro, às 19hs

As três primeiras aulas já aconteceram e estão gravadas aquiPara assistir as aulas “ao vivo”, pelo aplicativo Zoom, basta seguir a página da mostra no Facebook (clique aqui), onde é divulgado o link.

Todas as vistas Lumière (filmes, na sua maioria, de um único plano de 50 segundos, a duração do rolo de película de 17 metros), estão sendo exibidas em formato digital full HD. Elas foram divididas em 19 programas, que destacam os principais temas abordados nos filmes da Societé Lumière - cidade, natureza, trabalho, viagem, retrato familiar, registro da modernidade etc.

A maioria das sessões é iniciada com uma seleção de vistas Lumière e, em seguida, são apresentados filmes (curtas, médias e longas-metragens) de cineastas como Buster Keaton, Dziga Vertov, Vittorio De Seta e Shirley Clarke, Jean Renoir, Jacques Tati e Joaquim Pedro de Andrade, entre outros.

Ficha técnica
Lumière Cineasta
Patrocínio - Banco do Brasil
Apoio institucional - Cinemateca da Embaixada da França|Embaixada da França no Brasil
Curadoria - Calac Nogueira, Lucas Baptista e Maria Chiaretti
Produção - Raio Verde Filmes
Realização - Centro Cultural Banco do Brasil

Os filmes da Societe Lumière

Chegada de um trem na estação La Ciotat. Foto - Institut Lumière

A primeira sessão de cinema apresentou ao mundo o cinematógrafo, aparelho desenvolvido por Louis Lumière, que era, ao mesmo tempo, uma câmera portátil, movida à manivela, permitindo o deslocamento dos operadores e com isso o registro de lugares distantes, e também um projetor que exibia as imagens em movimento em tela grande, associando o cinema à ideia de espetáculo.

A portabilidade do cinematógrafo permitiu um rápido domínio pelos Lumière do mercado de espetáculo de projeção de imagens animadas nos primeiros anos de cinema. Em 25 de janeiro de 1896, os irmãos abriram a primeira sala de cinema em Lyon, seguida por salas em Londres, 20 de fevereiro, Bruxelas, 29 de fevereiro, três salas em Paris no mês de abril e em várias outras cidades do mundo.

Entre 1895 e 1905, a companhia Lumière produziu um total de 1.428 filmes, que ficaram conhecidos como “vistas”. Destes, apenas 114 passaram por um trabalho de restauração recente e estão disponíveis em alta resolução.

“Nós trouxemos também algumas vistas não restauradas, que praticamente não circulam, e a diferença é gritante. Nas restauradas você percebe muito mais informação na imagem, o que é importantíssimo para o tipo de relação que se tem com a obra dos Lumière”, ressalta Calac Nogueira.

Os filmes da Societé Lumière se destacam especialmente na produção documental. O catálogo de vistas era composto majoritariamente por registros de espaços públicos, praças, ruas, monumentos, além de cenas familiares, cenas de trabalho, eventos, paradas e exercícios militares. Uma parte significativa é composta ainda por vistas de viagem, filmadas em toda a Europa (Alemanha, Inglaterra, Espanha, Itália, Suíça, Rússia), mas também na América (México, Estados Unidos, Martinica) e no oriente (Japão, Egito, Jerusalém e, em especial, Indochina Francesa, atual Vietnã, na época colônia francesa).

Um dos gêneros de destaque no catálogo Lumière são os chamados “panoramas”: vistas filmadas de trens, carros ou barcos em movimento, que são considerados os primeiros movimentos de câmera do cinema. Um dos exemplos mais famosos é o Panorama do Grande Canal de Veneza filmado de um barco (1896), registrado pelo operador Alexandre Promio de uma gôndola em Veneza. O catálogo da produtora conta ainda com pequenos filmes de comédia e cenas históricas reconstituídas, além de cenas religiosas, como a da Paixão de Cristo.

Cena de 'One week', de Buster Keaton e Edward F. Cline

As vistas documentais se notabilizaram pela maestria visual e pela captura do movimento vivo das ruas. Para os operadores - que trabalhavam com uma câmera sem visor - tratava-se sempre de encontrar o melhor ângulo para dar conta da cena que desejavam registrar. Essa busca pelo ponto de vista ideal resulta em filmes de uma extrema riqueza visual, que apresentam relações inusitadas entre entradas e saída de campo, entre primeiro plano e plano de fundo da imagem.

Vistos hoje, os filmes da Societé Lumière encarnam perfeitamente a mentalidade moderna da virada do século XIX para o XX. São comuns nesses filmes “imagens do progresso”, registros trens, navios, balões e máquinas em geral. Há um predomínio do registro do espaço urbano sobre o rural. Uma série de 26 vistas foi dedicada apenas à Exposição Universal de 1900, em Paris.

As vistas de viagem, por outro lado, repercutiam o impulso colonialista da França naquele período. A série de vistas realizadas por Gabriel Veyre na Indochina Francesa, atual Vietnã, oferecia aos franceses um vislumbre dos territórios coloniais de além-mar. Imagens vindas do Japão, da Tunísia e de todo o Oriente Médio e norte da África davam ao público francês a possiblidade de olhar o outro, em uma relação na maioria das vezes marcada de exotismo.

“Há um verdadeiro corte entre o chamado ‘primeiro cinema’, que vai até cerca de 1905, e a nossa experiência de cinema hoje. Não só pela falta de narrativa nos filmes do primeiro cinema, mas porque as próprias práticas de exibição eram outras. O engajamento que o espectador precisa ter com a vista Lumière é muito diferente do que ele tem com um filme narrativo. A aproximação com filmes realizados em outros períodos foi a forma que encontramos para exibir esses filmes em sala de cinema e chamar atenção para certos aspectos dessa produção”, comenta Calac Nogueira.

Confira abaixo a programação até 20 de dezembro:

Data - 12 de dezembro - sábado

Programa 'As folhas se movem' (digital)
Vistas Lumière, de Societé Lumière (França, 1895/1905) + 'Um dia no campo', de Jean Renoir (França, 1946)
Horário - 15h
Duração - 53 min.
Classificação - livre

Programa 'Filme retrato (digital e 16mm)
Vistas Lumière, de Societé Lumière (França, 1895/1905) + 'Home Movies', de Shirley Clarke (EUA, 1940/59) + 'Cenas da vida de Andy Warhol', de Jonas Mekas (EUA, 1990) + 'Screen Tests', de Andy Warhol (EUA, 1963/67)
Horário - 16h30
Duração - 116 min.
Classificação - livre

Data - 13 de dezembro - domingo

Programa 'Rumo ao oriente' (digital)
Horário - 15h
Duração - 107 min.
Classificação - livre

Cena de 'Em comparação', de Harun Farocki

Programa 'Em construção' 
(digital)
Vistas Lumière, de Societé Lumière (França, 1895/1905) + 'Miséria em Borinage', de Henri Storck e Joris Ivens (Bélgica, 1993) + 'Em comparação', de Harun Farocki (Alemanha, 2009).
Horário - 17h20
Duração - 109 min
Livre

Data - 14 de dezembro - segunda-feira

Programa 'A invenção do burlesco (digital)
Vistas Lumière, de Societé Lumière (França, 1895/1905) + 'The scarecrow', 'Neighbours', 'The goat', 'One week', de Buster Keaton e Edward F. Cline (EUA, 1920/21)
Horário - 15h
Duração - 91 min.
Classificação - livre

Programa 'Do polo ao Equador' (digital)
Vistas Lumière, de Societé Lumière (França, 1895/1905)
Horário - 17h
Duração - 30 min.
Classificação - livre

Data - 16 de dezembro - quarta-feira

Programa 'Figuras na paisagem' (digital)
Vistas Lumière, de Societé Lumière (França, 1895/1905) + 'Três paisagens', de Peter Hutton (EUA, 2014)
Horário - 15h
Duração - 70 min.
Classificação - livre

Curso/Aula 4 (online)
Vistas Lumière: documentos do acaso, com Anita Leandro, professora da ECO/UFRJ e documentarista.
Horário - 19h

Data - 17 de dezembro - quinta-feira

Programa 'Cine-verdade' (digital)
Vistas Lumière, de Societé Lumière (França, 1895/1905) + 'Kino Pravda 5,6, 18 e 19', de Dziga Vertov (URSS, 1922/24). Digital
Horário - 15h
Duração - 60 min.
Classificação - livre

Programa 'Operários, camponeses'
Vistas Lumière, de Societé Lumière (França, 1895/1905) + 'Cedo demais, tarde demais', Jean-Marie Straub e Danièle Huillet (França/Egito, 1982)
Horário - 17h20
Duração - 115 min.
Classificação - livre

Data - 18 de dezembro - sexta-feira

Programa 'Rumo ao oriente' (digital)
Horário - 15h
Duração - 107 min.
Classificação - livre

Data - 19 de dezembro - sábado

Programa 'A invenção do burlesco' (digital)
Horário - 15h
Duração - 91 min.
Classificação - livre

Programa 'Jogos na metrópole' (digital)
Horário - 17h
Horário - 133 min.
Classificação - livre

Data - 20 de dezembro - domingo

Programa 'Paraíso reencontrado' (digital)
Vistas Lumière, de Societé Lumière (França, 1895/1905) + 'Tabu', de F.W. Murnau. (EUA, 1931)
Horário - 15h
Duração - 98 min.
Classificação - 12 anos

Frame de 'Brasília, contradições de uma cidade nova', de Joaquim Pedro de Andrade

Programa 'Devaneios e deslocamentos' (digital)
Vistas Lumière, de Societé Lumière (França, 1895/1905) +'Aurélia Steiner (Melbourne)', de Marguerite Duras (França, 1979) + 'Brasília, contradições de uma cidade nova', de Joaquim Pedro de Andrade (Brasil, 1967) + 'Bookstalls', de Joseph Cornell (EUA, 1930)
Horário - 16h40
Duração -  77 min.
Classificação - livre

Serviço
Lumière Cineasta
Período - até 20 de dezembro
Local - Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro - Salas de Cinema 1
Capacidade - 47 lugares
Endereço - Rua Primeiro de Março 66 - Centro - Rio de Janeiro
Ingresso - entrada franca
Mais informações 21 3808-2020

Postar um comentário

0 Comentários