As Senhoras de Nazaré: uma fábula da infância à maturidade.

Foto - Matrix Editora

Obra do escritor anglo-palestino Naim Attallah acaba de chegar ao Brasil e imprime força e lirismo às questões políticas e de identidade

Realidade e ficção fundem-se na escrita de Naim Attallah. A novela autobiográfica As Senhoras de Nazaré, traduzida por Alessandra Blocker, acaba de chegar às livrarias de todo o Brasil.

A obra conta a história de Wardeh (“rosa”, em árabe) e Jamileh (“linda”), duas irmãs que têm sua vida passada na cidade bíblica de Nazaré, a partir de 1918, quando a Inglaterra passou a controlar a Palestina, ao vencer os exércitos otomanos durante a Primeira Guerra Mundial.

As duas irmãs são árabes cristãs, não sabem ler nem escrever e tiveram de lutar contra o analfabetismo pelo resto da vida. Dependiam da natureza para lhes dizer a hora do dia, pela posição do sol no céu. Sabiam até as horas à noite pela mudança dos padrões das estrelas e dos planetas, mas conhecem intuitivamente os ritmos da terra na qual vivem, numa pequena propriedade rural, que permaneceu intocada entre guerras. Seguem negociando ovos com os beduínos, em troca de uma cesta de figos ou outros mantimentos, e tentando vender flores aos monges.

Wardeh foi casada por um breve período - um casamento arranjado aos 18 anos, sem lhe darem a oportunidade de conhecer ou sequer ver seu marido antes da cerimônia. Logo ficou viúva. Jamileh permaneceu solteira, cética e desconfiada. Viviam de forma espartana e cuidadosa, em sintonia com o local onde moravam, sempre se adaptando ao ritmo da natureza para extrair dela o seu sustento.

O filho do breve casamento de Wardeh interrompeu a vida simples que levavam. Ele estudou em uma escola alemã em Jerusalém e acabou se tornando um ser estranho, agressivo, imprevisível e apoiador do nazismo. Foi o filho dele - com sua sensibilidade e saúde frágil - que se transformaria na pessoa mais importante para elas.

Sobre o livro

A obra gira em torno, basicamente, do afeto das duas senhoras - a avó e a tia-avó - pelo neto. Depois de anos de reclusão e submissão ao pai rígido na cidade grande, o menino, na pré-adolescência, por causa da guerra, vai se refugiar em Nazaré. O refúgio se transforma para ele, em liberdade, e aventura.

O menino, que vivia constantemente doente, entre a vida e a morte, sempre foi criado pelos pais longe das ruas e das brincadeiras. Ele se viu livre, pela primeira vez, ao mergulhar numa vida simples ao lado das senhoras de Nazaré. A natureza bruta daquele lugar lhe trouxe inúmeros aprendizados, cores e aromas.

Passou a observar a beleza das mulheres beduínas, com sua pele bronzeada e sem retoques artificiais, que chegavam às fontes com inúmeros vasos de barro na cabeça. Sentiu os aromas delicados das flores dos jardins, aprendeu a correr atrás dos pombos com sua tia Jamileh ou a plantar uma oliveira no jardim, para dar frutos para a posteridade. “Era como se a história tivesse sido congelada e eles tivessem voltado aos tempos bíblicos”, descreve o autor.

O menino investiga suas raízes, indo atrás de primos e tios perdidos. Conhece o amor, o afeto, a aventura, a vida e a arte a partir dos ensinamentos da avó e da tia-avó. A novela - literalmente uma narração em prosa num meio termo entre romance e um conto - traz essa jornada de aprendizado do herói.

Um caráter de formação (Bildungsroman, termo alemão para designar o romance de aprendizagem), ao apresentar a personagem principal em jornada da infância à maturidade, em busca de crescimento espiritual, político, social, psicológico, físico e moral.

Sobre o autor

Inglês de origem palestina, Naim Attallah é presidente da editora Quartet Books. Durante muitos anos foi CEO do grupo Asprey e, junto com Auberon Waugh, co-fundador do Academy Club. Attallah deu apoio às revistas The Literary Review e The Oldie e, por muito tempo, se envolveu com inúmeras produções de teatro, cinema e televisão.

O empresário lançou a então desconhecida autora Elizabeth Wurtzel e seu livro Prozac Nation (ainda não publicado no Brasil), que originaria o filme Geração Prozac, com Christina Ricci. Atualmente, vive em Londres, é casado e tem um filho.

Naim escreveu três livros autobiográficos, dentre eles, As Senhoras de Nazaré. “Relato curto e simples, que lembra um conto de fadas”, definiu a crítica Anne Chisholm, do Sunday Telegraph. A obra expõe, com delicadeza, a magia da vida no campo, repleta de incertezas e dependente dos caprichos da natureza. E reúne, harmonicamente, contrastes: Nazaré e Jerusalém, campo e cidade, Oriente e Ocidente, vida e morte, juventude e velhice, árabes palestinos e judeus imigrantes. Ser nativo e estrangeiro em sua própria terra.

Ficha técnica
As Senhoras de Nazaré
Autor - Naim Attallah
Tradução - Alessandra Blocker
Editora - Matrix
Páginas - 80,00
Preço - R$ 24,00
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