'Meu Nome é Sara': drama biográfico chega aos cinemas


Filme, do cineasta Steven Oritt e do roteirista David Himmelstein, que foi um dos grandes destaques na programação da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo estreia nos cinemas dia 27 de fevereiro

Baseado na vida de Sara Góralnikem, o longa 'Meu Nome é Sara' traz para o cinema a história de uma menina polonesa, judia, cuja família inteira foi morta pelos nazistas.

Depois de fugir para a Ucrânia, usando a identidade roubada de sua melhor amiga, ela é acolhida por um casal de fazendeiros em uma pequena vila. Tudo parece correr bem para o recomeço de Sara, mas ela descobre que seus novos amigos possuem segredos sombrios e, para manter seu disfarce e sobreviver, ela terá que lidar com toda a tensão da situação.

Em junho de 1941, Sara Góralnik tinha apenas 11 anos quando o exército alemão invadiu sua cidade natal, Korets, na atual Ucrânia. Antes da guerra, Korets fazia parte de uma Polônia independente, que abrangia o território oriental da Ucrânia, lar de uma próspera comunidade judaica cuja história na região remonta a mais de 1.000 anos. Lá, os judeus criaram uma classe crescente de comerciantes que, em algumas províncias como Volyn, onde fica Korets, representava até dois terços da população local.



Naquela época, o leste da Polônia era um verdadeiro caldeirão onde judeus, católicos poloneses e cristãos ortodoxos ucranianos coabitavam em relativa paz por séculos. Os judeus eram a espinha dorsal comercial da região e floresciam como comerciantes; os agricultores ucranianos locais, no entanto, não se saíram tão bem.

Mal educados, oprimidos pela nobreza polonesa e famintos pelos soviéticos durante a grande fome da década de 1930, os ucranianos sofreram muito por décadas, uma agonia que cultivou um profundo ressentimento em relação à população judaica ascendente.

Com a invasão nazinta, muitos ucranianos cumprimentaram seus libertadores alemães de braços abertos e saudaram a limpeza de seus vizinhos judeus da região.


A atriz e curadora do Castellinaria - Festival Internacional de Cinema Jovem (Suíça) Andreina Sirena, faz uma análise profunda sobre o filme, e do momento vivido na época. Confira abaixo: 

Para sobreviver, Sara é forçada a negar sua religião, fingindo ser cristã e até comendo carne de porco, o que é proibido aos judeus. No fundo, porém, permanece ligada às suas origens e tradições. A cena em que ele adormece e acorda falando hebraico e invocando 'Israel' parece significativa. Você conhece a religião judaica e o Talmude? Você sabe que os judeus por muitos séculos foram acusados de 'deicídio', isto é, de serem culpados de causar a morte de Jesus (condenado pelo Sinédrio, mas também pelo governo romano).

Essa acusação só foi revisada em 1962, pelo Vaticano. Nessa ocasião, foi declarado que a morte de Jesus era atribuível exclusivamente aos judeus que viviam naquela realidade geográfica específica, dois mil anos atrás, sem reverberações sobre o povo judeu no mundo atual.


O filme mostra continuamente a atmosfera de suspeita e deterioração humana que pode ser criada em uma realidade perseguidora. Em nosso presente, podemos ver essas atitudes em relação a pessoas diferentes em religião, cor da pele ou orientação sexual?

Ao se identificar com a protagonista, você acha que teria agido como ela ou que, em algumas circunstâncias da história, seu comportamento teria sido diferente? O caráter de uma pessoa pode influenciar uma situação de vida ou morte?

O filme não se concentra na fuga,  mas nas implicações psicológicas da protagonista e em suas relações com o exterior, com foco nas nuances internas. Naqueles que são forçados a viver escondendo sua identidade e origens, em compromissos, portanto no dano colateral do Shoah, termo da língua iídiche usado para definir o holocausto judeu. Concorda?

Para entender melhor a Shoah e aumentar a empatia com Zuzanna Surowy, atriz que interpreta Sara, o diretor foi com ela visitar o campo de extermínio de Auschwitz. Você sabia que este campo de extermínio foi a maior fábrica de morte já concebida? No entanto, existe uma corrente histórica conhecida como ‘negação’, que nega a existência de campos de extermínio. O conceito se baseia na ausência de uma ordem escrita de Hitler relativa ao extermínio de judeus e à falta de evidências sobre o vazamento de gás dos chuveiros.

O paradoxo dessa história é que, para ter uma prova irrefutável da existência das câmaras de gás, Jean Claude Pressac, um ‘negador’, que, em 1989, com a reabertura dos arquivos de Moscou, passou a possuir um documento em que a administração de Auschwitz ordenou a instalação de detectores de ácido cianídrico, ingrediente ativo do gás Zyclon B.

O sistema serviu como um detector de gás, para que os soldados pudessem retornar aos chuveiros e descartar os cadáveres. Lembre-se, portanto, que, apesar do fato de haver centenas de testemunhos dos sobreviventes, fontes voluntárias e involuntárias - e nunca memoriais são sempre considerados pelos historiadores -, as testemunhas só podem responder pelo que veem e nem sempre têm uma visão objetiva e completa da realidade em que vivem.


Em uma cena aparecem algumas mulheres que estão se despindo, logo depois elas serão alinhadas e baleadas. Reflita sobre os dois modos de guerra adotados por Hitler: um no Ocidente, um tipo tradicional (contra a França e a Inglaterra), com o objetivo de uma paz negociada; e o outro tipo de guerra no Oriente, de dominação e extermínio, onde as teorias raciais são o ponto de partida e de chegada.

Para os nazistas, os habitantes dessas regiões são 'untermenschen', ou raça inferior, e, além do exército nazista, militares na Polônia, Ucrânia e Rússia, também eram simpatizantes dessa visão da SS. Para saber mais, faça uma pesquisa sobre o 'Kommissarbefehl', o massacre de Babij Jar em Kiev e o trágico episódio de Bjelaia Zerkov.

Sara e sua família anfitriã atravessam uma rua com o carrinho e encontram três pessoas enforcadas com uma placa que diz 'Eu escondi judeus'. Muitas famílias - independentemente dos riscos que corriam - ocultaram e resgataram judeus. Em contrapartida, havia muitos informantes entre as pessoas comuns que entregaram os judeus aos nazistas. Se o casal que acolheu Sara soubesse imediatamente sobre as origens judaicas da garota, o que eles fariam? O que você teria feito no lugar deles? Pense sobre isso!


O longa com direção de Steven Oritt (do documentário "American Native") e roteiro de David Himmelstein ("O Preço de um Campeão" e "A Cidade dos Amaldiçoados"), tem estreia prevista nos cinemas dia 27 de fevereiro. 

Assista ao trailer:


Ficha técnica
Meu Nome é Sara
EUA | 2019 | Drama | 90 min.
Título Original - My Name is Sara
Direção - Steven Oritt
Roeiro - David Himmelstein
Elenco - Zuzanna Surowy, Konrad Cichon, Pawel Królikowski

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