Mostra Olhos Livres busca energia vital da imaginação em meio a realidades pulsantes

21ª Mostra Tiradentes - equipe do filme Inaudito vencedor da Mostra Olhos Livres eleito pelo Júri Jovem. Foto - Léo Lara/Universo Produção

Cinco longas-metragens concorrem ao Troféu Carlos Reichenbach na 23ª Mostra Tiradentes e marcam trajetórias de cineastas experientes com trabalhos de variadas abordagens estéticas

A máxima de Oswald de Andrade de “ver com olhos livres” volta a ser a condução da seção na Mostra de Cinema de Tiradentes que leva essa expressão - Olhos Livres - e celebra um cinema da liberdade e da experiência. Os cinco títulos selecionados pela dupla de curadores Francis Vogner dos Reis e Lila Foster vêm cada um de um estado (Ceará, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Bahia) e representam tipos variados de olhares e estéticas. São dirigidos por nomes já consagrados e que levam para esta 23ª edição da Mostra seus novos trabalhos ainda inéditos.

Os filmes da Olhos Livres em 2020 são: “Até o Fim” (BA), de Ary Rosa e Glenda Nicácio; “É Rocha e Rio, Negro Leo” (RJ), de Paula Gaitán; “Fakir” (SP), de Helena Ignez; “Sertânia” (CE), de Geraldo Sarno; e “Yãmĩyhex: As Mulheres-espírito” (MG), de Sueli Maxakali e Isael Maxakali.

22ª Mostra Tiradentes - melhor longa da Mostra Olhos Livres - Parque Oeste de Fabiana Assis. Foto - Beto Staino/Universo-Produção
Eles serão avaliados pelo Júri Jovem - composto por estudantes da oficina “Análise de Estilos Cinematográficos”, ministrada pelo crítico de cinema Victor Guimarães durante a 13ª Mostra CineBH, em setembro de 2019 - e concorrem ao Troféu Carlos Reichenbach e premiações de parceiros da Mostra.

Para Lila Foster, uma das curadoras, esta edição da Olhos Livres buscou apontar para a variedade de proposições que tangenciassem o tema geral da Mostra em 2020 “A imaginação como potência”. “São caminhos estéticos muito distintos, porém apontando para uma energia vital que emana dos filmes e que se mostra necessária para os tempos que correm”, diz ela.

Um filme como “Fakir”, por exemplo, mescla arquivo, pesquisa histórica, performance e música na construção de uma linhagem artística marcada pela paixão, obsessão e dedicação plena dos praticantes de faquirismo. “Com atenção especial às mulheres, o filme é também um retrato de uma época em elas lutaram para seguir os seus desejos como artistas e às suas paixões avassaladoras, misto de afirmação e sacrifício”, afirma Lila.

Também centrado na energia feminina, “Até o Fim” se concentra no poder da fala, da conversa e dos segredos revelados, dimensão tão presente nos filmes anteriores da dupla de cineastas. “Um bar numa praia é o cenário de um reencontro entre mulheres da mesma família, irmanadas em suas semelhanças e diferenças. A câmera acompanha a intensidade da cena, aderindo e intensificando o ritual familiar”, adianta a curadora.

Mostra Olhos Livres - Cine Tenda. Foto - Jackson Romanelli/Universo Produção
Lila chama atenção ainda para “É Rocha e Rio, Negro Léo”, no qual a fala do cantor e sociólogo documentado pelo filme é o eixo central que organiza a cena. “Entre reminiscências e projeções para o futuro, é um cinema feito com elementos básicos, mas não menos potentes: o enquadrar, o registrar, o plano-sequência, para dar conta do gesto largo do artista que se narra”, diz ela. “Esse filme ‘feito em casa’ põe em ação a necessidade de formularmos caminhos possíveis, principalmente através da arte, diante de um presente que parece cada vez mais inviável”.

Em diálogo com questões urgentes de cenário contemporâneo brasileiro, um filme indígena como “Yãmĩyhex: As Mulheres-espírito” surge incontornável. “O cinema indígena aponta caminhos para uma compreensão mais ampliada sobre as possíveis ordens do mundo, sem as barreiras entre o universo em que se vive e suas fabulações”, diz Lila. No caso deste ano, a passagem das mulheres-espírito pela aldeia Maxakali é registrada pelos cineastas na intensa indissociação entre cinema e ritual, entre a imagem produzida e os sentidos e visões que ali habitam.

Por fim, “Sertânia” marca o retorno de Geraldo Sarno à ficção, ao mesmo tempo que um retorno também ao sertão mítico e ao universo do cinema brasileiro dos anos 1960, com um vigor na encenação e na fotografia em preto-e-branco. “Centrando sua energia na construção da imagem de um mundo delirante de um jagunço que está entre a vida e a morte, a alucinação forma a matéria do filme”, resume a curadora.


Troféu Barroco - Prêmio Carlos Reichenbach para o melhor longa da Mostra Olhos Livres elegido pelo Júri Jovem. Foto -Léo Lara/Universo-Produção
Júri Jovem

Formado por cinco estudantes universitários, o Júri Jovem vai analisar os longas da mostra Olhos Livres e escolher um deles para ganhar o Troféu Carlos Reichenbach. Para a escolha dos estudantes durante oficina na CineBH, foram utilizados como critérios a clareza e articulação de fala e escrita, a capacidade de análise e reflexão, o olhar atento e coerência na expressão. “O processo da oficina foi de intenso diálogo, com uma turma muito participativa e ótimas discussões sobre o cinema brasileiro contemporâneo. As interações entre os participantes foram muito ricas e os vários bons textos são resultado desse processo”, destaca o instrutor Victor Guimarães.

Os membros do Júri Jovem são: Diego Souza (21 anos, estudante do 6º período de Jornalismo da UFMG); Gustavo Mota (19 anos, estudante do 4º período de Cinema Rádio e TV da ECA/USP); Luisa Lombardi (20 anos, estudante do 3º período de jornalismo da UFMG); Marina Lamas (20 anos, estudante do 4º período de Cinema e Audiovisual da UNA); e Murilo Morais (23 anos, estudante do o período de Imagem e Som da UFSCar).

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