Livro revela fatos inéditos sobre a Princesa Isabel


Obra reúne 20 anos de pesquisa sobre o período da transição da monarquia para a república

Uma produção editorial bastante rara de ser encontrada nas livrarias brasileiras. “Alegrias e Tristezas: estudos sobre a autobiografia de D. Isabel do Brasil” (1846, Rio de Janeiro - 1921, França) é considerado o livro mais longo já escrito sobre a “Princesa Isabel” e um trabalho minucioso conduzido pelos autores e historiadores Maria de Fátima Moraes Argon e Bruno da Silva Antunes de Cerqueira.

O livro, fruto de mais de vinte anos de pesquisas, contém material inédito para os leitores que, nas últimas décadas, foram apresentados a uma princesa ora alienada, ora inapta e, por fim, praticamente ausente do processo que levou ao fim da escravidão no Brasil. Fátima Argon mostra no texto sobre a “escrita de si” no percurso biográfico da “Redentora”, que ela era plenamente ciente de sua missão enquanto herdeira da coroa e futura imperatriz.

“Mesmo de modo discretíssimo, a Princesa agiu pelo fim da escravidão mais de uma década antes do 13 de maio de 1888. Evidências disso são as honrarias concedidas aos homens que pudessem fazer algo não somente pelos negros, mas pelos pobres em geral. As moedas de troca eram comendas das ordens imperiais e, algumas vezes, títulos de nobreza, o que ela chamava de ‘tartines’, que significam ’confeites’ ou ‘badulaques’, em cartas à Condessa de Barral”, comenta Fátima.

Mas o texto vai além, deixando claro que a princesa-herdeira jamais foi marionete nas mãos de D. Pedro II ou do marido dela, o difamado Conde d´Eu. De acordo com as historiadoras Teresa Maria Malatian, da UNESP, e Lúcia Maria Paschoal Guimarães, da UERJ (colaboradoras da obra), trata-se de rico material sobre um dos temas mais enigmáticos da história brasileira: a transição da Monarquia para a República.

“A historiografia sobre a futura imperatriz foi enviesada por olhares masculinos, depois reproduzido até por historiadoras. Por outro lado, o catolicismo de D. Isabel é esmerilhado, sendo compreendido como parte de sua legitimação social enquanto governante e, também, de uma cosmovisão cristã que impregnava todos os seus atos”, acrescenta Bruno Antunes de Cerqueira.

Ponto alto dos estudos que Bruno chama de “isabelistas”, é identificar que o golpe da República em 1889 não foi contra D. Pedro II e sim contra a filha, que no Pós-Abolição poderia ter sido a real garantidora dos direitos dos negros, governando em companhia de Joaquim Nabuco, André Rebouças, José do Patrocínio, Rodolpho Dantas, Franklin Doria, Alfredo Taunay, Affonso Celso Junior e, até, de Machado de Assis, além das mulheres que ela já “empoderava”, como suas amigas Amandinha Doria (Baronesa de Loreto) e Mariquinha Tosta (Baronesa de Muritiba).

Princesa Isabel e Conde Deu - Foto IIDI - Acervo Arquivo Grão Pará
Influência da imperatriz exilada

Documentos inéditos mostram que mesmo do exílio D. Isabel influiu na vida social brasileira, de modo restrito. Foi dela a “promessa”, em pleno momento do banimento da Família Imperial, de que no alto do Corcovado seria erguida uma estátua de Jesus. Suas súditas fiéis, no Rio de Janeiro, sobretudo a filha do Almirante Tamandaré, idealizaram o Cristo Redentor, na década de 1900, algo que absolutamente nunca se comentou. O monumento teria uma estátua em tamanho menor da princesa, como “redentora” do Brasil, o que ela mesma não incentivou.

O texto de Bruno A. de Cerqueira mostra ainda que, na França, a “imperatriz exilada do Brasil” trabalhou sempre pelas causas sociais e que seu nome era de absoluto prestígio nos movimentos de remissão de pessoas escravizadas na África. Até Marcel Proust a teria conhecido e nela teria se baseado, em parte, para idear a sua “Princesa de Parma”, uma das mais curiosas personagens de “Em busca do tempo perdido”.

A formação da princesa também ganha destaque em “Alegrias e Tristezas”, provando que estudou a vida toda, e que seu pai dizia que para ela se educar era que ele tanto se dedicava aos estudos. Um dos muitos fatos curiosos do exílio na França é saber que o mais importante professor de piano de D. Isabel, o maestro afro-cubano José White y Latiffe, que ela nomeara diretor do Conservatório do Rio de Janeiro, a acompanhou no banimento, sendo uma espécie de “mestre de capela” de sua corte, em Paris e no Castelo d´Eu.

Por fim, revela-se que a adesão à República de 1889 não foi grandiosa como se acredita e que muitos nobres, sobretudo os titulados pela princesa em suas regências, morreram desgostosos, no ostracismo, sem jamais ingressar na política.

Sobre os autores

Bruno Cerqueira e Maria de Fátima Argón na Casa da Princesa Isabel em Petrópolis. Foto - Divulgação
Em “Alegrias e Tristezas: estudos sobre a autobiografia de D. Isabel do Brasil”, os textos autobiográficos são reunidos diante das análises de dois especialistas sobre a governante. Fátima Argon trabalha a escrita de si no percurso biográfico daquela que teria sido D. Isabel I na transição do XIX para o XX, enquanto Bruno A. de Cerqueira analisa as implicações teóricas que a história da historiografia da personagem aportam aos estudos sobre a virada do século e a Belle Époque no Brasil.

O livro traz ainda a cronologia isabelina e isabelista e uma tabela com todos os homens e mulheres que D. Isabel nobilitou, pessoalmente ou por vias transversas. É composto, também, de dois cadernos de imagens (fotografias, pinturas, memorabília) algumas inéditas, bem como as tábuas de costados e descendentes de D. Isabel.

Nascido em Niterói (RJ), Bruno A. de Cerqueira graduou-se em História na PUC-RJ e pós-graduou-se em Relações Internacionais no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro. Graduou-se em Direito no Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). É especialista em genealogia dinástica, foi diretor de publicações do Colégio Brasileiro de Genealogia e assessor especial na Chefia para Assuntos de Cerimonial da Presidência da ALERJ. Desde 2012 atua na Fundação Nacional do Índio (Funai), em Brasília, e, atualmente, auxilia a Coordenação-Geral de Gestão de Pessoas na formação dos novos servidores da entidade.

Como advogado atua nas Comissões da Memória e da Verdade e dos Direitos Humanos da OAB/DF. Presta consultorias para o Senado Federal, a Câmara dos Deputados e o Museu Imperial em diversas demandas informacionais, principalmente no que se refere à história da Monarquia e da realeza brasileiras, do abolicionismo, do isabelismo e da participação das mulheres na política oitocentista. Em 2001, fundou o Instituto Cultural D. Isabel I a Redentora.

Natural de Paraíba do Sul (RJ), Maria de Fátima Moraes Argon é graduada em História pela Universidade Católica de Petrópolis-UCP e Arquivologia pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro-UniRio, além de contar com uma e pós-graduação em História do Brasil pela Universidade Cândido Mendes-UCAM.

Trabalhou no Museu Imperial / IBRAM, de 1980 a 2018, tendo coordenado projetos como a organização de publicações técnicas, seminários e exposições. Com o projeto “A fotografia em Petrópolis: 1851 a 1960” foi contemplada com a Bolsa de Artes Vitae (2001/2002) na área de Fotografia. É autora de diversos artigos, publicações e CDs sobre os temas a Família Imperial, História de Petrópolis, História da Fotografia e Arquivos Pessoais.

É presidente do Instituto Histórico de Petrópolis (IHP), associada titular do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro e da Academia Petropolitana de Letras, sócia-correspondente da Academia Valenciana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão.

Como reconhecimento do seu trabalho na cidade de Petrópolis recebeu diversos títulos e reconhecimentos como: o Prêmio Personalidades Femininas como “Destaque feminino da Cultura” (2002); Prêmio Walter Bretz, da Academia Petropolitana de Letras (2005), e o título de Cidadã Petropolitana pela Câmara Municipal (2007)


Sobre a Editora
A Linotipo Digital Editora e Livraria Ltda., com sede em São Paulo e fundada em 2011, dedica-se a trazer à luz antigos clássicos da literatura e história brasileiras, além de outras áreas do conhecimento. Também edita livros de negócios, economia, direito, arqueologia, religião e filosofia, além de projetos em outros ramos.

Comandada pelos editores Laerte Lucas Zanetti, advogado, e André Assi Barreto, professor de filosofia e tradutor, atua em parceria com renomadas entidades culturais brasileiras e estrangeiras.

Sobre o Instituto Cultural D. Isabel a Redentora
O IDII, sigla pela qual é conhecido o Instituto Cultural D. Isabel I a Redentora, é uma organização não governamental voltada para educação, cultura, valorização da civilização brasileira e preservação da memória dos grandes vultos da transição entre o Oitocentos e o Novecentos, em especial de D. Isabel e dos Abolicionistas.

O Instituto foi fundado em 13 de maio de 2001, no salão nobre da Imperial Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos do Rio de Janeiro. Mais informações aqui.


Ficha técnica
Alegrias e Tristezas: estudos sobre a autobiografia de D. Isabel do Brasil
Autores - Bruno da Silva Antunes de Cerqueira e Maria de Fátima Moraes Argon
Editora - Linotipo Digital, em parceria com o Instituto Cultural D. Isabel a Redentora
Edição - 1ª | 2019
Páginas - 888 e mais de 70 ilustrações
Preço - R$ 150,00
Mais informações e comprar 11 3256-5823 ou clique aqui

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