Beatles e os lunáticos

Por Dr Cássio Faeddo*


Deixem os Beatles em paz. Eles já deram sua cota de contribuição para o mundo, gostem deles ou não

Não é de hoje que a banda de Liverpool, mesmo cinquenta anos após seu término, é vítima de todas as espécies de teorias malucas, ora relacionando-os a tendências políticas, ora ao satanismo, dentre outras teses tão desvairadas quanto seus teóricos.

Certa vez perguntaram a John Lennon sobre a origem do nome Beatles. E John inventava uma história diferente para cada oportunidade. Em uma dessas respostas John afirmou, em reportagem para a revista Mersey Beat de 1971, que teve uma visão onde "um homem, numa torta flamejante disse: 'Vocês serão Beatles com A”.

Mas a banda teve diversos nomes antes: "Johnny and The Moondogs", "Long John and The Silver Beatles”. Mas o mais provável é que “The Beatles” tenha sido uma homenagem a Buddy Holly e "The Crickets”. A letra “a” teria relação com “beat”, batida, ritmo.

Muito mais tarde Paul McCartney compôs: “I'm the man on the flaming pie/ Now everything I do has a simple explanation”, canção que deu nome ao disco “flaming pie” (1995). A letra é meio nonsense, aliás como sempre a banda tratou as teorias conspiratórias ligadas ao grupo. Ou seja, jogavam lenha na fogueira.

A teoria mais estranha, sem dúvida, é aquela que diz que Paul McCartney teria morrido em um acidente em 1966 e sido substituído por um sósia.

A capa de Sgt Peppers seria uma das provas disso, com uma coroa de flores em forma de um contrabaixo, por exemplo. Na contracapa Paul está de costas. No final de “Strawberry Fields Forever”, bem baixinho, John teria falado “I buried Paul”, ou, “eu enterrei Paul”. John teria afirmado que falou “cranberry sauce”. Na capa do famoso “Abbey Road” outro indicativo seria que Paul, ou seu clone, estava descalço e com passo trocado em relação aos demais.

O fato é que eles brincavam com essas histórias, como na letra de “Glass Onion”, no Álbum branco: “I told you about the walrus and me, man/ You know that we're as close as can be, man /Well here's another clue for you all/ The walrus was Paul”. Como se sabe em “I’m the Walrus”, walrus era John fantasiado no filme “Magical Mistery Tour”.

Na fase Beatles, nenhum deles se ocupava muito em escrever letras politicamente engajadas, ou pelo menos, as letras não se referiam diretamente a política. Uma das poucas menções políticas é a música “Revolution”, ainda que a letra tome uma posição francamente a favor da não violência.

A atitude mais engajada foi a devolução da medalha do Império Britânico por Lennon, que disse: "Eu estou retornando este MBE em protesto contra o envolvimento da Grã-Bretanha na questão da Nigéria-Biafra e contra o nosso apoio no Vietnã (...)”.

Mas Lennon, durante a fase Beatles, preocupava-se mais em escrever letras preocupadas com temas humanos do que propriamente temas políticos. Mas se há um responsável por essa linha de letras na fase Beatles, esse alguém atende pelo nome Bob Dylan, cuja admiração Lennon nunca escondeu. A influência se encontra em diversas canções: “I´m a loser”, “Girl” (será que lhe contaram que um homem teria que curvar-se até quebrar as costas para ter um dia de descanso?, diz a letra), “You´ve got to hide your love way” (trataria de homossexualidade?), dentre outras.

Paul sempre se ocupou mais da musicalidade do que com qualquer filosofia nas letras. George, sempre mais espiritualista e Ringo, mais infantil e engraçado (“Octopus Garden”, por exemplo).

John, após mudar para Nova Iorque, foi investigado pelo governo norte-americano e houve uma tentativa de expulsão mal sucedida. John, pós Beatles, era muito mais engajado politicamente do que os demais, e a capa de “Some Times in New York City”, e as canções que ali encontramos, dão ideia do que era John naquela época.

No ano de sua morte, 1980, Lennon estava mais voltado ao relacionamento de casais na faixa de 40 anos, contemporâneos seus dos anos 60.

Ilações fora do contexto a respeito dos efeitos do LSD nas composições da maioria dos artistas dos anos 60 são oportunistas ou frutos de ignorância. O contexto da época deve ser o pano de fundo. Importante para entender os efeitos do LSD nas artes daqueles anos passa pela leitura de “As Portas da Percepção”, livro escrito por Aldous Huxley, que narra suas experiências alucinatórias quando tomou mescalina e leitura sobre o Prof. Timothy Francis Leary, Ph.D. de Harvard, que tratou de expor os benefícios terapêuticos e espirituais do LSD. Qualquer exposição sobre esse tema deve partir deste contexto.

Quanto aos malucos e assemelhados, John Lennon deixou bem claro sua posição nos anos 70 em “Give me some truth”: “(...) Estou farto de ler coisas vindas de neuróticos, psicóticos, políticos, de cabeça-de-porco/Tudo que quero é a verdade/Me dê só um pouco da verdade (...)”.

Como se sabe, John e George vivem hoje no céu com diamantes, Paul esbanja energia e vitalidade, e Ringo se diverte tocando com seus amigos. Portanto, deixem os Beatles em paz. Eles já deram sua cota de contribuição para o mundo, gostem deles ou não.

*Dr Cássio Faeddo é Advogado, Mestre em Direitos Fundamentais, MBA em Relações Internacionais.

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