Fábula e Rodas dos Três Amigos

Amizade entre Federico Garcia Lorca, Salvador Dalí e Luis Buñuel inspira peça Fábula e Roda dos Três Amigos, que estreia dia 27/6 no Sesc Pinheiros. O título do espetáculo é uma referência ao poema Fábula e Roda dos Três Amigos, escrito em 1930 por Lorca e que narra a amizade de três homens

Em cena os atores Iuri Saraiva, Oliver Tibeau e Thomaz Mussnich, dirigidos por César Baptista, que foi durante anos assistente dos encenadores Antunes Filho e Gabriel Villela.

Localizada em Madrid, o instituto La Residencia de Estudiantes recebeu no início do século XX três artistas espanhóis que se tornaram cânones mundiais da cultura: o dramaturgo e poeta Federico García Lorca, o pintor Salvador Dalí e o cineasta Luis Buñuel. O encontro dessas três figuras durante a juventude e a amizade que estabeleceram é o mote do espetáculo Fábula e Roda dos Três Amigos, escrito por Flávio Ermírio, com direção de César Baptista e estreia marcada para dia 27 de junho, quinta-feira, 20h30, no Auditório do Sesc Pinheiros.

Segundo o dramaturgo, Fábula e Roda dos Três Amigos mistura elementos reais e ficcionais para criar um jogo de memórias e traçar paralelos históricos entre passado e presente. "Muitas situações que vivemos hoje já aconteceram de outra forma, como se o passado não tivesse ficado para trás totalmente, estivesse ainda entre nós, de alguma forma", justifica o autor. Sua escolha foi a de tratar esses elementos sem um apelo didático ou jornalístico, opção endossada pela direção de César Baptista, que cria elementos cênicos ora realistas, ora oníricos.

O diretor exemplifica destacando o uso da simultaneidade de tempo e espaço que Flávio propõe no texto: "Há uma cena inspirada em uma entrevista dada por Dali a um programa de televisão em que suas respostas são interrompidas e misturadas por um discurso de Lorca, que parece estar sendo interrogado pelo governo fascista que o assassinou tempos depois".

César ressalta que uma das facetas da montagem é a abordagem peculiar que Flávio faz dos artistas. "Eles são vistos na juventude, em desenvolvimento de uma personalidade que os tornou quem foram. Não há um foco apenas na excentricidade de Dali (interpretado por Iuri Saraiva), no surrealismo de Buñuel (Thomaz Mussnich) e na melancolia de Lorca (Oliver Tibeau), mas sim em questões mais complexas, como o papel da arte, a razão para praticá-la e o processo para encontrar a própria voz como criador", complementa. Na peça, haverá projeções e elementos cênicos que remetem às obras e ao estilo marcante dos três artistas – um exemplo é o uso de caixões que terão a função de trazer as personagens à vida e que em seguida se tornarão, metaforicamente, objetos variados, de modo a salientar a visão poética da criação.

Inevitavelmente, o espetáculo traça caminhos que contam muito sobre os dias de hoje, reforçando o quanto as vozes desses artistas eram reprimidas por não estarem em consonância com o discurso normativo da época. César, que foi assistente de direção de Antunes Filho por seis anos, conta que aprendeu com ele a recorrer aos grandes mestres quando não soubesse resolver uma cena. "Neste espetáculo, tinha muito a quem recorrer por estar lidando com três figuras cujas poéticas deveriam se friccionar naturalmente com a teatralidade do espetáculo", diz.

Cem anos depois desses eventos, vivemos mais uma vez sob o "império da lógica" do autoritarismo, que transforma os artistas em ameaças ao plano de destruição dos afetos, da solidariedade e das alteridades. Fazer teatro é criar espaço para o encontro das vozes e corpos que lutam para não desaparecer – Flávio Ermírio

A composição do texto, segundo Flávio, tem uma dramaturgia tradicional, com início, meio e fim, mas que abre espaço para textos fluídos, numa estrutura de colagem. "Há uma cena em que se misturam trechos do manifesto surrealista, de uma carta escrita por Dali e um poema de Lorca – ao declamarem juntos esses textos, damos um novo sentido para esses discursos", explica.

Apesar da peça não oferecer um protagonismo para nenhum dos três artistas, o ponto de vista da peça parte de Lorca, que foi fuzilado aos 38 anos pelo regime de ditadura espanhola imposto por Francisco Franco. O título do espetáculo é uma referência ao poema Fábula e Roda dos Três Amigos, escrito em 1930 por Lorca e que narra a amizade de três homens "pelo mundo das camas, pelo mundo das universidades, pelo mundo do sangue, dos mortos e dos jornais abandonados".

Ao final do poema, Lorca antecipa o próprio destino: "Quando se fundiram as formas puras sob o cri-cri das margaridas, compreendi que haviam me assassinado. Percorreram os cafés e os cemitérios e as igrejas, abriram os tonéis e os armários, destroçaram três esqueletos para arrancar seus dentes de ouro. Já não me encontraram. Não me encontraram? Não. Não me encontraram." Não há um registro que confirme que o poema foi escrito em homenagem a essas amizades, em específico, mas ainda que não o seja, é possível que o poema seja lido à luz desse encontro.

Sobre a Trilogia Fantasias Biográficas

Fábula de Roda e Três Amigos é a primeira peça da Trilogia que Flávio está idealizando com o objetivo de propor um diálogo entre memória/passado/ficção e realidade/presente/percepção. A ideia é para trazer ao palco ficções inspiradas na trajetória de grandes artistas de diferentes épocas, passando por temas como sexualidade, poder, processos criativos, amor, intolerância, autoralidade e, principalmente, o limite da linguagem oral para dar conta de explicar e significar nossas emoções e contradições.

"Em cada uma das peças, há um diálogo entre a dramaturgia da palavra e outras dramaturgias não verbais, como a música, as artes visuais e a dança, em uma tentativa de discutir formalmente a limitação da linguagem racional, escrita, como ferramenta para a compreensão dos dilemas humanos, alguns contemporâneos e outros atemporais", diz Flávio.

A segunda parte da trilogia já está escrita e é fruto do estudo de Flávio em dramaturgia no Núcleo de Dramaturgia do Sesi/British Council. Trata-se da peça sinfônica Tudo Que o Mar Carrega, baseada na vida do compositor russo Peter Ilich Tchaikovsky. Publicada em texto pela Editora Sesi em 2016, a montagem está em fase de pré-produção.

A terceira peça, que Flávio ainda irá escrever, parte do encontro entre o jazzista norte-americano Miles Davis e o compositor e multi-instrumentista alagoano Hermeto Pascoal.

Sinopse

Fábula e Roda dos Três Amigos explora o período específico em que Federico García Lorca, Salvador Dalí e Luis Buñuel se conheceram. Os três jovens artistas são colocados em fricção, o que traz à tona suas personalidades fortes, paradoxos, contradições e idiossincrasias, além de explorar de outros momentos da vida e obra desses artistas. Misturando elementos ficcionais e reais, a peça traz situações dessa relação, como o dia que se conhecem, as tentativas de trabalharem juntos, as dúvidas da juventude, o início da maturidade, o rompimento da amizade, e também visita momentos que escapam à cronologia desse período, como o misterioso desaparecimento do corpo de Lorca, assassinado aos 38 anos no período fascista da Espanha, sob o regime do General Franco.

Ficha Técnica

Texto - Flávio Ermírio
Elenco - Iuri Saraiva, Oliver Tibeau e Thomaz Mussnich
Direção, Iluminação e Trilha Sonora - César Baptista
Assistentes de Direção - Arno Afonso e Patrícia Carvalho
Preparação Corporal - Patrícia Carvalho
Cenário, Adereços e Patchwork - Mirtis Moraes
Videografismo e Videomapping - André Grynwask e Pri Argoud (Um Cafofo)
Figurino - A Equipe
Marcenaria - Marcus Geimer
Fotos - Flávio Ermírio
Estagiário - Paulo Castelo
Produção Executiva - Nathália Gouveia
Assistente de Produção - Cora Valentini
Direção de Produção - Flávio Ermírio e Thomaz Mussnich
Produção - Poétika Produções
Realização Sesc

Serviço

Fábula e Rodas dos Três Amigos 
Data - de 27 de junho até 20 de julho de 2019. Quinta a sábado, às 20h30 
Local - Sesc Pinheiros - Auditório
Tel. - 11 3095.9400
Endereço - Rua Paes Leme, 195
Capacidade - 98 lugares
Ingressos - R$ 25,00 (inteira), R$ 12,50 (estudante, servidor de escola pública, + 60 anos, aposentados e pessoas com deficiência) e R$ 7,50 (credencial plena do Sesc trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo matriculado no Sesc e dependentes).
Classificação - 14 anos
Duração - 60 minutos

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