Última semana da exposição que homenageia o modernista José Pancetti

Porto - 1940 - Óleo sobre tela - Foto - Divulgação
Em cartaz desde outubro, na galeria Almeida e Dale, a mostra apresenta cerca de 60 pinturas, entre paisagens, retratos e naturezas-mortas

Grande representante do modernismo brasileiro, José Pancetti gostava de pintar ao ar livre. Suas telas costumavam ser pequenas para que ele pudesse carregá-las de um lugar para o outro. Em suas viagens pelo Brasil, pintou as praias de Salvador, as montanhas de Campos do Jordão, as ruas íngremes de São João Del Rei, entre tantas outras paisagens tipicamente brasileiras. O artista também retratou o povo de seu país e pintou muitos autorretratos. Sua vasta produção pode ser conferida na exposição Pancetti - Navegar é Preciso, que a Galeria Almeida e Dale apresenta desde o dia 17 de outubro.

Com curadoria de Denise Mattar, a mostra reúne cerca de 60 pinturas, agrupadas por temas, além de fotos, manuscritos e cartas. A última grande exposição dedicada ao artista foi realizada em 2002, no Museu de Arte da Bahia, com itinerância em outras capitais. Agora, quinze anos depois, o público pode rever grande parte da produção do pintor como as famosas Marinhas, uma das facetas mais conhecidas de sua obra.

Filho de imigrantes italianos, Pancetti nasceu na cidade de Campinas no ano de 1902 onde viveu até os oito anos de idade.  Aos 11 anos foi enviado para Itália para morar com um tio e lá  trabalhou como marinheiro desde os 16 anos, tendo permanecido na profissão até os 34 anos. Sua proximidade com o mar é refletida em 25 obras da mostra, que reúne desde os primeiros quadros do artista, que retratam barcos e construções, até obras do fim de sua vida, registros que se aproximam da abstração, reduzidos à areia, à luz e ao mar. Cabo Frio, Itanhaém e Arraial do Cabo são alguns dos destinos representados por Pancetti, atento às sutilezas de cada local. O artista faleceu em fevereiro de 1958, aos 56 anos de idade, na cidade do Rio de Janeiro.

Para o crítico de arte Frederico Moraes, a obra do modernista é marcada por uma constante sobriedade aliada ao lirismo. “A pintura de Pancetti é como um convés de navio, curtida de sol e sal. Não enferruja. Honesta, limpa, econômica, direta, austera, quase seca, mesmo quando a cor se expande e o gesto abriga a emoção. Não há nele nem o supérfluo, nem o desperdício”. 

Essa aridez aparece na série de paisagens urbanas, produzidas no começo da carreira do artista, na década de 1940. As obras retratam lugares fechados, como pátios ruas e becos, sempre com cores escuras. Predomina um sentimento de melancolia e sufocamento associado à vida nas grandes cidades. Nessas paisagens e também em algumas naturezas-mortas, é possível identificar a influência de mestres como Paul Cézanne (1839-1906) e Henri Matisse (1869-1954). 

Oh! Bahia minha estrela, minha amada - 1954 - Foto - Divulgação
Sua paleta adquiriu tons mais coloridos quando passou a viver em Salvador, em 1950, ano no qual participou da Bienal de Veneza. Para a curadora Denise Mattar, a mudança de cidade foi um ponto de ruptura em sua carreira: “A ida de Pancetti para a Bahia modificou sua personalidade e sua obra, a alegria tornou o artista mais doce, e ele explodiu em cores quentes e fortes. Sem estar preocupado com uma brasilidade teórica, Pancetti retratou como ninguém a nossa gente, a nossa luz e o nosso mar”. 

As cores quentes aparecem ainda nos vários retratos que o modernista produziu em sua vida. Crianças, lavadeiras e prostitutas foram alguns dos grupos que ele pintou, homenageando a classe popular da qual se sentia parte. Para o crítico de arte Marc Berkowitz, esse encanto pela simplicidade também aparece na própria concepção do trabalho: “Pancetti não ligava à moda, ou aos “ismos”, ele fazia sua pintura, como ele a entendia, com aquela integridade tão típica dele”.

A exposição também apresenta seus famosos autorretratos, aos quais o artista atribuía múltiplas personalidades: marinheiro, camponês, almirante, pescador. Nessas pinturas, Pancetti sempre aparece de perfil, ora em tons dramáticos, ora engraçados. “O artista se arriscava ardorosamente, pintando suas fantasias e investindo-se de diferentes personalidades, dando a cada uma dessa personas diferentes densidades psicológicas”, pontua a curadora.

Em cartaz até 9 de dezembro, a exposição se insere em um projeto maior da galeria de enfatizar a produção de grandes nomes da arte brasileira, como nas exposições já realizadas de Raimundo Cela, Ernesto de Fiori, Di Cavalcanti, Ismael Nery, entre outros. Na atual mostra, a galeria homenageia a obra singular de Pancetti, artista que possuía grande identificação com a paisagem e o povo brasileiro.

Mais informações ligue (11) 3882-7120.

Serviço
Pancetti - Navegar é Preciso
Até 9 de dezembro
Local - Galeria Almeida e Dale
Endereço - Rua Caconde, 152 - Jardins - São Paulo
Visitação - de segunda a sexta, das 10h às 18h; sábados, das 10h às 13h

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