Coerência nas atitudes...

Tenho por hábito, faço isso há anos, para puxar a inspiração e ter ideias novas ou antes de elaborar uma proposta ou projeto, folhear livros novos ou antigos, revistas e, óbvio, fuçar muito na internet. Neste sabadão nublado, aproveitei o silêncio da manhã para começar o esboço de um novo projeto sobre valores humanos nas corporações.

E o ritual não foi diferente: Fuça daqui, pesquisa dali e, sem muita pretensão, olhei para a estante do meu quarto onde avistei uma coleção antiga de livros, que herdei do meu pai, do escritor Malba Tahan (Heterônimo do matemático brasileiro Júlio Cesar de Mello). Puxei um empoeirado exemplar do livro “Lendas do Povo de Deus” e comecei a ler um conto muito interessante que transcrevo, literalmente, abaixo.

Do Prazo de Deus

Sucedeu que, indo a Roma, o rabi Samuel achou casualmente rica pulseira pertencente à Rainha. Dirigiu-se o rabi, sem demora, ao palácio onde pretendia restituir a jóia. Em meio do caminho, porém, encontrou um arauto que percorria a cidade, de rua em rua, proclamando:

- Quem restituir a pulseira, dentro de trinta dias, receberá, como recompensa, quinhentas moedas de ouro. Aquele que conservar, em seu poder, a jóia, além desse prazo, se for descoberto, será decapitado.

Ao ouvir aquela ameaça, rabi Samuel desistiu de levar a termo o seu louvável intento; conservou a jóia e so a devolveu no fim de trinta e um dias, isto é, depois de terminar o prazo da proclamação.
Informada do caso, a rainha mandou chamá-lo e interpelou-o numa afável ameaça:

- Não estavas, ó judeu, informado da minha decisão?

- Estava ciente de tudo – respondeu o rabi.

- Por que, então, não cumpriste a ordem? Que motivo te levou a guardar a terminação do prazo por mim fixado?

O douto israelita explicou, sem afetação e sem cálculo:

- Cumpria-me devolver a jóia por temor de Deus. Mas se eu fizesse a devolução dentro de trinta dias ouviria de todos: - “Ele assim procedeu por temor da rainha e não por temor de Deus”. Sobre meus amigos e discípulos causaria certamente, a minha atitude, deplorável impressão. É meu dever educar aqueles que vivem sob minha orientação. Várias vezes eles tem ouvido de mim: “O temor de Deus é o princípio de toda a sabedoria”. Ora, o temor de Deus é incompatível com as ameaças humanas. Aguardei, portanto, que o vosso prazo terminasse, e reiniciado o prazo de Deus  deliberei restituir imediatamente a jóia.

E o rabi concluiu elevando intencionalmente a voz, com fulgurante convicção nos olhos:

- A devolução só poderia ser feita dentro do prazo de Deus!

Sorriu a rainha ao ouvir aquela resposta, e resolveu a confundir o filósofo interpelou-o novamente, num desvanecimento ingênuo:

- E se o prazo, ao invés de se limitar a trinta dias, fosse de dez, vinte ou trinta anos?

- De qualquer modo – persistiu o rabi Samuel, com gravidade e segurança – o vosso prazo seria finito, ao passo que o prazo de Deus só prescreve com a Eternidade!

A rainha, surpreendida por tão sábias palavras, vencida pela sublimidade do conceito, exclamou comovida, no seu deslumbramento:

- Louvado seja o Deus dos judeus!

Para refletir: Coerência nas atitudes é tudo, não é mesmo?
Fonte
Lendas do Povo de Deus
Malba Tahan
Nona edição – 1961
Editora Conquista

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