| Foto - Nathan Lisboa |
Livremente inspirada em Request Concert, de Franz Xaver Kroetz, Um Dia de Semana Qualquer apresenta um mergulho na solidão urbana e no caos criativo. A montagem da Associação Teatral Notívagos Burlescos, de Botucatu, que celebra 23 anos de trajetória artística, chega ao Teatro Alfredo Mesquita de 14 a 18 de janeiro
A peça traz uma abordagem contemporânea que integra vídeo mapping, dança teatro e música ao vivo, com dramaturgia de Sheyla Coelho e Robert Coelho e direção de João Alves. Em cena estão Sheyla Coelho, Murilo Andrade e Dael Vasques. A proposta, viabilizada pelo ProAC 22/2024 para obras inéditas, rompe as fronteiras do hiper-realismo de Kroetz para criar uma experiência mais fluida entre o épico e o lírico, abordando temas urgentes como solidão, depressão e ansiedade, acentuados no período pós-pandêmico.
Na trama, uma mulher atravessa uma rotina saturada pelo barulho da cidade, das redes e dos fluxos incessantes de mídia, afundando em uma solidão povoada e intensa. Em paralelo, acompanhamos uma atriz perdida em seu caos criativo e ideológico, tentando acessar meios de produção para realizar um trabalho transformador em meio às exigências do presente. Essas duas figuras se encontram e buscam se reconstruir, apesar de uma sociedade fragmentada que desgasta quem tenta sobreviver às suas dinâmicas.
| Foto - Nathan Lisboa |
"O que nos motivou a revisitar Kroetz foi a necessidade de retomar o tema da solidão feminina em uma realidade muito diferente da dele e da nossa, há 23 anos, quando montamos sua obra. Em Request Concert, o suicídio aparece como um ato de resistência de uma mulher isolada e oprimida. Ao voltar ao texto e a nós mesmos, entendemos que hoje nosso caminho é o da rebeldia, a rebeldia de seguir criativos e sonhadores em um cotidiano que nos afasta da nossa essência. Continuamos falando da solidão de quem precisa, antes de ser, sobreviver, agora em um tempo em que virtual e real se misturam, fantasias são vendidas como sonhos e o silêncio mordaz de Kroetz se camufla no barulho das redes sociais", afirmam os autores.
A criação parte do impacto da precarização do trabalho, que se apoia no verniz do discurso do empreendedorismo. O grupo toma como referência o conceito desenvolvido pelo filósofo contemporâneo Byung-Chul Han, a Sociedade do Desempenho, uma marca da atualidade que massifica o discurso da positividade tóxica e provoca superaquecimento neurológico.
Manicures, dentistas, motoristas de aplicativo, psicólogos e médicos têm a venda de sua força de trabalho mediada por gadgets e plataformas, e, nesse contexto, muitas vezes a habilidade é nivelada pela audiência cibernética. Os encontros e as trocas reais cedem lugar ao automatismo da audiência medida por likes e seguidores virtuais.
| Foto - Nathan Lisboa |
"Acreditamos que a ideia de sociedade do desempenho permeia o texto como um todo, porque ela é parte constitutiva da solidão dos dias de hoje. Paula é uma mulher em meio a pressões internas e externas, cindida entre a vontade de criar algo transformador e a exigência de performar sucesso, engajamento e resiliência. Ela adoece, dissolvendo a sua identidade na da personagem que antes buscava criar, uma mulher trabalhadora e solitária imersa em fantasias e discursos oferecidos pelas redes sociais", completam.
Para o diretor João Alves, a crítica ao automatismo das redes e das mídias digitais ganha corpo justamente quando o teatro recoloca o humano no centro da experiência. "É sempre importante lembrar que, por trás dos gadgets, streamings e redes sociais, existe o humano, tanto no processo de programá-los como no processo de utilizá-los. Uma crítica consistente ao automatismo destas mídias se faz quando tiramos o humano da passividade e o colocamos como agente primário da própria vida, trazendo a humanidade necessária para que o humano encontre o humano na cena teatral", afirma.
Ele destaca ainda que a encenação busca equilibrar densidade e prazer estético. "Por mais que tratemos de temas densos e complexos da contemporaneidade, eu busquei não perder de vista a diversão que nasce da teatralidade. Cada elemento de cena foi pensado para encher os olhos do público com imagens que tragam prazer estético e, ao mesmo tempo, abram espaço para a reflexão", conclui.
Ficha técnica
Um Dia de Semana Qualquer
Direção - João Alves
Concepção - Sheyla Coelho e João Alves
Dramaturgia - Robert Coelho e Sheyla Coelho
Elenco - Sheyla Coelho, Murilo Andrade e Dael Vasques
Direção Musical - Dael Vasques e Fernando Vasques
Direção de Movimento - Vinicius Gil
Direção de Imagem - Um Cafofo
Cenografia - Gabriel Lino e Jaime Pinheiro
Iluminação - Osvaldo Gazotti
Produção Executiva - Isabela Araújo
Assistente de Produção - Gabee Laranja
Assistente de Direção - Ana Cunha
Estágio Direção Teatral e Operação de Som - LEHA
Estágio Cenotécnica - Tamara Rocha
Figurino - Verson Souto
Serviço
Um Dia de Semana Qualquer
Temporada - 14, 15, 16, 17 e 18 de janeiro
Horários - quarta a sábado, às 20h e domingo, às 19h
Sessão extra - 17 de janeiro - sábado
Horário - 17h30
Local - Teatro Alfredo Mesquita
Endereço - Av. Santos Dumont, 1770 - Santana - São Paulo
Capacidade - 198 lugares
Ingressos gratuitos (retirar na bilheteria 1 hora antes de cada sessão)
O Teatro é acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida na plateia
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